quinta-feira, 26 de julho de 2007

Ilha de Tavira

Triste é apodrecer
Ancorado e amarrado,
No porto da saudade
E da esperança
Que tarda.

Abdul-Hamid

PS: Até Setembro...

sábado, 7 de julho de 2007

Testamento


Aos amigos (poucos), inimigos (nenhum, desconheço dada a insignificância que provocam), credores (tantos), familiares (numerosos como moscas), parceiros (incontáveis, de copo, de trabalhos, de sonhos, etc) e a quem mais possa interessar.

Venho, por meio desta (óbvio), comunicar-lhes meu falecimento.

Deixo esta em forma de testamento (“registrado em cartório do céu e assinado, Deus”) para se faça cumprir minha vontade diante das condolências tão típicas dadas aos, finalmente, vencidos. Também comemoro o desaparecimento de alguns semelhantes.

Morrerei, provavelmente de falta de ar, aos quarenta e cinco anos e, de preferência, numa segunda-feira, para dar-lhes alguma folga ao mais terrível dos dias semanais. Sim, o diagnóstico é infalível. Não cabe avaliar prognósticos.

Quero deixar claro que tudo que possa se aproveitar do meu corpo deve ser doado. De certo que não há muito. Mas, quem sabe, a ciência possa conseguir descontaminar alguma parte, ou mesmo encontrar algo ainda latente e útil. Vivo. Porque, de fato, não se morre de súbito. Venho morrendo há muito.

Que partes de mim seriam de alguma utilidade?

Se possível fosse o reuso dos meus braços, estes poderiam servir bem ao receptor. São fortes, bravos e não se fatigam facilmente das enxadas e dos abraços. De inteiro se aproveita. Dedos prescutadores que escafandrinham superfícies com a habilidade dos insetos notívagos. Tremem, por certo, mas até que, por tal, provocam risos e sensações vibrantes. Os punhos também têm seus valores. Flexíveis, sempre. Por entenderem na flexibilidade a verdadeira força. Inquebráveis, portanto. De resto, é força. A força oriunda dos afagos e proteções indiscriminadas.

Não relacionarei os órgãos putrefatos. Fígados encharcados de tóxicos. Pulmões arfantes pelos tragos e paixões incompreendidas. Coração abatido pelos sustos e sístoles de Sísifo. Pernas em embolias por não terem andado os caminhos que convidavam. Costas fracas de tanto se curvarem aos impérios e seus imperativos. Sequer suportaram a própria cruz. Bagagem indispensável a qualquer que exista.

Ah! Meus olhos. Estes bem que poderiam trazer alento a quem os recebessem. Pois vêem belezas tantas, mesmo em meio às desgraças, sempre graças perambulando os calçadões e praias do meu desejo. Não existiria infelicidade. Nunca. Cansados se o alcance é muito perto ou mal definido. Mas quanto aos horizontes e distantes sonhos, são lunetas postas na imensidão azul. Do mar. Do céu. Dou-os de muito bom grado.

Pertences? Cds, livros e a velha escrivaninha de meu pai. Obviamente serão das filhas. Primeiramente, a mais velha. Sequentemente, a menor, caso a primeira abra mão.

Quanto ao ato de despedida, peço que o façam da seguinte maneira: todos deverão estar descalços. Também deverão usar uniformes de mordomos ou empregadas, para que não haja destaque pela indumentária. Desvencilhem-se de títulos plausíveis aos mortos. Deixem que os sentimentos vistam a importância das coisas.

Não quero padres. De nenhuma espécie. Não respeito igrejas, menos ainda, seus representantes. Sejam elas quais forem. Budistas, metodistas, católicas, protestantes, todas. Contudo, acredito na santidade dos vinhos e similares. Bebam a vontade. Por mim.

À minha companheira, peço que se entregue ao primeiro que aparecer. Sei que estará, a princípio, bem infeliz porque muito me ama. Mas que continue se dando, indiscriminadamente, para poder gozar em qualquer corpo e, no campo das probabilidades, aumentar as chances do novo amor. Sei bem que as mulheres precisam disso. De um casamento, um elo mais forte, um porto.

No mais, plantem-me para adubar flores e plantas. Do esterco ao esterco. Eis a beleza incoercível da natureza.

Aluísio Aderaldo Martins Rodrigues - trabalha com projetos culturais e edição de livros de fotografia pela editora3x4. Escreve por diversão, dor, amor, ódio, enfim, escreve por pura emoção.