quarta-feira, 31 de outubro de 2007

... numa brincadeira de mau gosto

Até quando vai a nossa sociedade de consumo, do negócio, portar-se com a imensa hipocrisia de que o Álcool não é uma droga perigosa. Basta!

Era um homem, tinha quarenta e dois anos e as pessoas da sua aldeia dizem à boca cheia que era uma pessoa pacata.
Depois de fechada a tasca às duas da madrugada e porque as pessoas na aldeia não têm mais nenhuma diversão. Os quatro canais de televisão em casa, a tasca e o trabalho. É a vida da maior parte das pessoas das aldeias e vilas de Portugal.
A festa tomara o auge depois do fecho da dita tasca, um companheiro teria comprado cinquenta garrafas de vermute para receber um blusão que a marca disponibilizara a troco das caricas das cinquenta garrafas e pronto ofereceu a quem quisesse tomar o gole, fantástico, cinquenta a dividir por sete ou oito indivíduos. Recusamos sequer o pensamento de que as pessoas têm a obrigação de saberem o que fazem, conhecemos bem e demais a poderosa droga para pensarmos que não pára quem quer e quando quer, não! É uma droga forte que causa habituação e aceite socialmente, mais, ainda persiste o lema que acaba por servir de pretensa desculpabilização; "quem não bebe, não é homem". Triste desta sociedade que impune a mentalidade pobre e assassina que ganha dinheiro com esse negócio.
Em Portugal há cerca de 700.000 (setecentos mil) alcoólicos, mas mais de 2.500.000 (dois milhões e quinhentos mil) sofrem directa ou indirectamente as consequências desse álcool consumido, mais grave, cada vez mais se começa a consumir mais novo e com a coisa da igualdade de géneros, elas também querem beber, portanto, as mulheres estão entrando na droga cada vez com mais intensidade e... assobiamos para o lado, não se passa nada...
Dois rapazes de dezassete anos, um adulto de vinte e dois, outro de quarenta, foram alegadamente os responsáveis pelo crime, foram? Bem já sabemos como somos para julgar, somos os melhores juízes do planeta, adoramos culpados e ainda melhor se os culpados moram ali ao lado, também, para que a novela fique bem composta, gostamos de sangue, mais sangue. Alcoolizados, portanto sem a consciência plena, quem sabe se até inconscientes, sabemos que muitas vezes o alcoólico faz coisas que nem soube que fez na realidade, amarraram as mãos e pés à mesma altura João Inácio, a um gradeamento, ao que se disse o homem sofreria de asma e quando pelo princípio da manhã o viram de novo continuava amarrado, mas morto.
O Estado português é culpado, compete-lhe fazer leis e criar condições para que as mesmas sejam aplicadas, com o sentido de proteger os cidadãos de qualquer agressão a que esses fiquem sujeitos. O Estado é conhecedor dos malefícios do consumo de Álcool, tem a obrigação de informar devidamente os cidadãos, sobretudo os mais novos; por exemplo como se exige com o tabaco a obrigação do alerta nos recipientes que o consumo de Álcool provoca danos físicos irreversíveis e pode matar. Proibir toda a espécie de publicidade ao consumo de Álcool, muito menos permitir que marcas organizem eventos culturais.
O Estado português é culpado!

(foto DN) adeus João Inácio, desculpa a brincadeira

http://www.esec-miranda-douro.rcts.pt/area%20escola/alcoolismo.htm

antoniomaia

sábado, 27 de outubro de 2007

Halloween em Lisboa com Moonspell no Coliseu

Com o «título» de Inferno em Lisboa , o espectáculo inclui actuações dos portugueses Moonspell, em apresentação de Under Satanae , e dos checos ROOT. Após os concertos, o colectivo de DJs Vanity Sessions toca no bar do Coliseu, onde se irá realizar também um «meet and greet» com os Moonspell.

Neste espectáculo, os Moonspell prometem apresentar na íntegra Under Satanae , o disco que sai a 15 de Outubro e que revisita o começo da carreira desta banda, nomeadamente a demo Anno Satanae e o EP Under The Moonspell .

sábado, 20 de outubro de 2007

Do Tempo de Quando

A RASGADA NUDEZ QUE NOS VESTE

São tantas as coisas a ditarem-me palavras. Só eu as escuto. Coisas prenhes de acção. Também há as prenhes de nada; são as que não guardam mistério.
É irresistível rasgar a cortina das coisas, deixá-las entrar, naturalmente, para se transformarem na maga sinfonia das palavras.
Preciso escrever.
Há um outro mundo onde as palavras moram, se acasalam e reproduzem. Há um outro mundo sem a roupagem das horas, do labor, de todos os deveres e de todas as obrigações, de todas as normas, de todos os comportamentos, de todos os parece mal e de todos os parece bem, de todos os almoços e jantares, de todos os conflitos, de todos os aniversários, de todas as mágoas…
Há um outro mundo que as palavras escritas transportam, porque carregadas de ti, de mim, de nós. É atingível esse mundo onde harpas e violinos trinam sempre que fazemos amor.
Preciso escrever para me esvaziar e voltar a encher-me. Quase sufoco de tanto que vou guardando no percorrer dum tempo dentro do próprio tempo.
Escrever permite-me atingir um estado de alma tocante na insatisfação da procura: a procura da palavra que alberga o tamanho do incomensurável mundo.
O outro mundo.
O mundo que, sendo temporal no existir, suporta a intemporalidade da memória ungindo-nos, a mim e a ti, com credos de vida, com aventurados trilhos, a rasgada nudez que nos veste.

Adelaide Graça

CONVITE
Dia 10 de Novembro, Livraria Bertrand C.C. Vasco da Gama, Lisboa, 17 horas, naquele Sábado, vai acontecer o lançamento, mais um, do mais novo livro de Adelaide Graça, "O Tempo de Quando".

PORQUE É ESTE O MEU CAMINHO

Mulher, com asas se gaivota ou de garça, tanto faz!
Não me imagino prisioneira em espaços abertos
a desperdiçar luz e vida que vêm dos filhos
que um dia pari.
Não me imagino prisioneira e sou prisioneira de tantas vezes.
Espontaneamente prisioneira!
Dum amor imensurável do qual não me imagina
a deixar de amar.

Porque é este o meu caminho.

Adelaide Graça


Penso que para dizer alguma coisa sobre Adelaide Graça, mulher, poeta, se pode partir deste seu poema; a recusa à prisão, de livre vontade presa, ao amor sem medida. Escrevendo. Preciso de escrever, são palavras da autora. A determinação pelo sonho da escrita, faz dela uma poeta de corpo e alma. A sua obra é prova do eco espelhado de quem lê as suas letras, suas sílabas, palavras, poemas.
Acabado de conhecer a sua escrita, aproveito o tempo de almoço em trabalho, para tomar contacto com os seus versos. Foi logo uma ligação muito forte, quase inexplicável, e a minha aproximação à poesia já tinha muitas raízes, não estava portanto estabelecendo um contacto virgem com aquela forma de escrita, não. As palavras dela passaram a ser minhas, também, queria-as para mim, eu teria dito exactamente daquela maneira sem acrescentar, nem tirar, nada! Não fui capaz de ir almoçar, devorei poesia naquele princípio de tarde, troquei o corpo pela alma.
Essa ligação foi, é e será muito forte, a minha admiração pela mulher, poeta, é de veneração profunda, sem perder o sentido crítico, deixo-me sempre levar pela música e sentido das suas palavras, num gozo incrível que só a leitura poética é capaz. Obrigado Adelaide pelas viagens que nos proporcionas a tão baixo custo, eternamente agradecido.
Ansiedade pelo novo livro, "Do Tempo de Quando", que sei não pertencer à família dos seus seis ou sete irmãos, já perdi a conta, de versos, a opção pela prosa poética não é uma novidade absoluta, no meio daqueles versos todos, lá vinha uma prosa intensa, capaz de fazer despertar os sentidos para o que está além do que os nossos olhos observam. Vamos agora aguardar pelo novo corpo de poesia que a Adelaide nos vai oferecer. Dia 10 de Novembro lá estaremos para a formalidade do lançamento, com a mesma pressa, com a mesma fome, o devoraremos.

antoniomaia



quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Levanta-te, ó milionário...


Não me conformo, não posso conformar-me... falarei, gritarei e nunca me calarei.
O que chorámos, baba e ranho da morte bárbara, ali em directo, do jogador de futebol Miklos Fehér do meu vermelho Benfica... e o que choramos da morte daquele operário? Que morreu a trabalhar. Quantos?
"Que morte? Daquele que trazia lancheira, daquele bruto que não lê Saramago, daquele que cheira a suor? Morte? de quem?"
O que é que fazem os senhores, burgueses de merda? Nada! a casa? o carro? a panela? o comboio? o caixão? Nada!
Parasitas miseráveis! Silêncio! Sim, calem-se! Por uns instantes de homenagem a mais dois operários que morreram a trabalhar. Construíam um condomínio para os senhores, que não produzem nada, morarem, com as suas famílias ricás... Ódio! Nojo!
Silêncio!

Setúbal: queda de muro faz dois mortos 2007/10/16 | 15:28 || Cláudia Lima da Costa , com Lusa
Acidente de trabalho em Setúbal deixa ainda um trabalhador com ferimentos graves. Operários abriam vala numa obra de construção de 12 vivendas. Muro com três metros de altura caiu sobre cinco funcionários. «Eu e outro colega conseguimos fugir porque estávamos a uma ponta». Três homens ficaram soterrados. Resgate levou três horas.

Morreram esmagados!

"Levanta-te, ó milionário,
Vai um enterro a passar;
É o corpo de um operário
Que morreu a trabalhar."

António Aleixo


Trabalho: 11 mortes por mês 2007/10/16 | 22:01 Até Setembro desde ano morreram em acidentes de trabalho 100 pessoas. Mais de metade dos óbitos ocorreram no sector da construção. Queda em altura e choque com objectos são as causas mais frequentes. Lisboa, Porto e Coimbra são os distritos com mais ocorrências.




Silêncio! Burguês parasita, clica agora no botão "play" acima, para escutares esse poema maravilhoso, escrito pelo enorme... operário... que o Mário Viegas faz o favor de emprestar a voz.
Silêncio!

O Operário Em Construção

Vinicius de Moraes

Composição: Vinicius de Moraes
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Apetece-me


A corrente transporta-me
até à foz.
Sinto-me mais perto de mim
envolta numa tertúlia,
onde tu apareces, em forma
de poema.
Apetece-me gritar.
Apetece-me amar-te.
Apetece-me voar.
Apetece-me beber a chuva,
o sol e o ar.
Apetece-me dormir contigo e
acordar na areia possuída pelo mar.
Apetece-me mergulhar
nas águas frias matizadas e
voar com as gaivotas para além
do oceano.
Não!
Eu vou gritar.
Eu vou amar-te.
Eu vou voar.
Eu vou beber a chuva,
o sol e o ar.
Eu vou dormir contigo e
acordar na areia possuída pelo mar.
Eu vou mergulhar
nas águas frias matizadas e
voar com as gaivotas para além
do oceano…
Agora sou eu,
envolta numa tertúlia,
onde tu apareces, em forma
de poema.


Adelaide Graça

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Honra ao camarada Che Guevara

Honra a todos os combatentes revolucionários tombados na luta pela liberdade!

Viva a Grande Revolução Global, contra os imperialismos!

sábado, 6 de outubro de 2007

Hugo Chávez

por IGNACIO RAMONET - Le Monde diplomatic

Poucos governantes, em todo o mundo, são alvo de campanhas de demolição tão odiosas como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Os seus inimigos têm recorrido a tudo: golpe de Estado, greve petrolífera, fuga de capitais, tentativas de atentados... Desde os ataques lançados por Washington contra Fidel Castro não se via na América Latina uma tal obstinação. São difundidas contra Chávez as calúnias mais miseráveis, concebidas pelas novas oficinas de propaganda – National Endowment for Democracy (NED), Freedom House, etc. – financiadas pela administração do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Esta máquina de difamação, que dispõe de ilimitados recursos financeiros, manipula os transmissores mediáticos (inclusive jornais de referência) e organizações de defesa dos direitos humanos, que por seu turno se alistam ao serviço de tenebrosos desígnios. Acontecendo também, ruína do socialismo, que uma parte da esquerda social-democrata junte a sua voz a este coro de difamadores.

Porquê tanto ódio? Porque na altura em que a social-democracia está a passar na Europa por uma crise de identidade, as circunstâncias históricas parecem ter atribuído a Hugo Chávez a responsabilidade de assumir, à escala internacional, a reinvenção da esquerda. Ao mesmo tempo que no Velho Continente a construção europeia teve como efeito tornar praticamente impossível qualquer alternativa ao neoliberalismo, inspiradas no exemplo venezuelano sucedem-se no Brasil, na Argentina, na Bolívia e no Equador experiências que mantêm viva a esperança de realizar a emancipação dos mais humildes.

A este respeito, o balanço de Chávez é espectacular, sendo compreensível que em dezenas de países pobres ele se tenha tornado uma referência obrigatória. Pois não reconstruiu ele, respeitando escrupulosamente a democracia e todas as liberdades [1], a nação venezuelana com novas bases, legitimadas por uma nova Constituição que garante a implicação popular na transformação social? Não devolveu ele a dignidade de cidadãos a cerca de cinco milhões de marginalizados (entre os quais as populações indígenas) que não tinham documentos de identidade? Não assumiu ele a empresa pública Petroleos de Venezuela S.A. (PDVSA)? Não desprivatizou ele e entregou ao serviço público a principal empresa de telecomunicações do país, bem como a empresa de electricidade de Caracas? Não nacionalizou ele os campos petrolíferos do Orenoco? Em suma, não dedicou ele uma parte dos rendimentos do petróleo à aquisição de uma autonomia efectiva perante as instituições financeiras internacionais e uma outra parte ao financiamento de programas sociais?

Foram distribuídos aos camponeses três milhões de hectares de terras. Milhões de adultos e crianças foram alfabetizados. Milhares de centros médicos foram instalados nos bairros populares. Foram operadas gratuitamente dezenas de milhares de pessoas sem recursos que sofriam de doenças da vista. Os produtos alimentícios de base são subvencionados e propostos às pessoas mais desfavorecidas a preços 42 por cento inferiores aos do mercado. A duração semanal do trabalho passou de 44 para 36 horas, ao mesmo tempo que o salário mínimo subiu para 204 euros por mês (o mais alto da América Latina a seguir à Costa Rica).

Resultados de todas estas medidas: entre 1999 e 2005 a pobreza diminuiu de 42,8 por cento para 33,9 por cento [2], ao mesmo tempo que a população que vive da economia informal caiu de 53 por cento para 40 por cento. Estes recuos da pobreza permitiram apoiar muito o crescimento, que nos três últimos anos foi, em média, de 12 por cento, situando-se entre os mais elevados do mundo, estimulado também por um consumo que aumentou 18 por cento por ano [3].

Perante tais resultados, sem falar dos alcançados na política internacional, será de espantar que o presidente Hugo Chávez se tenha tornado para os donos do mundo e seus fiéis acólitos um homem a abater?

Notas

[1] As mentiras a propósito da Radio Caracas Televisión foram recentemente desmentidas, tendo este canal retomado as suas transmissões por cabo e por satélite a partir de 16 de Julho.

[2] Mark Weisbrot, Luis Sandoval e David Rosnick, Poverty Rates in Venezuela: Getting the Number Right, Center for Economic and Policy Research, Washington DC, Maio de 2006, www.rethinkvenezuela.com/downloads/ceprpov.htm.

[3] Ler o dossiê «Chávez, not so bad for business», Business Week, Nova Iorque, 21 de Junho de 2007.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Junto a mim

As flores da erva de Outono
Murmuram baixinho --
"Como me são queridas
Todas as coisas mortais."

Wakayama Bokusui