quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

A Paixão de Manuel Garcia



Manuel Garcia, o pobre canteiro da rua das Silvas, quando soube que Maria del Pilar ia casar-se, matou-se.

Um drama encerrado em duas linhas, numa escassa dúzia de palavras, um drama que levou anos e anos e desenrolar-se, que teve o seu primeiro capítulo numa doce manhã de Maio e o seu epílogo num modestíssimo quarto duma casinha de pobres.

Como é difícil sondar os corações humildes, as histórias das vidas simples! E a história dum coração que nunca se interrogou em desoladoras horas de spleen, em inquietas noites de insónia, que nunca pretendeu perscrutar os complicados mistérios do Além, é uma história simples, uma humilde história que leva a contar uns rápidos minutos e cabe toda dentro de sete palmos de pinho… bem medidos, que Manuel Garcia era um rapagão! Alto, moreno, ombros largos, musculoso, tinha, contudo um coração de colegial de quinze anos; no forte arcaboiço daquele operário inculto e simples, vivia, não se sabe por que estranhas transmigrações, a alma dum poeta romântico. Quem diria!… Só a mãe, talvez… As mães adivinham sempre, não sei por que miraculosa intuição, o mistério que no mistério das suas entranhas foi gerado, e nunca se enganam! Quando, naquele húmido crepúsculo de Novembro, o sangue salpicou a parede muito branca de cal, ao lado da cama, no modestíssimo quarto da sua casinha de pobres, quando as morenas mãos crispadas, que revolveram a chaga na angústia suprema da morte, foram manchar de vermelho a pobre colcha branca, muito lavadinha, o seu orgulho de dona de casa, -- quando ela entrou e viu, a história leu-a ela inteira, dentro da sua triste alma de mãe dolorosa; foi como se a lesse toda, linha a linha, capítulo por capítulo, naquele funesto segundo em que o destino lhe punha diante dos olhos, brutalmente, para que ela o lesse, o seu sinistro epílogo de morte.

O candeeiro aceso iluminava com a sua luz fria e clara o conhecido cenário do pequeno quarto: duas cadeiras, uma coluna com um bustozinho de criança em pedra, o lavatório de ferro, uma mesinha e, ao fundo, a cama revolta, o revólver no chão, e o filho morto. Em cima da mesa, coberta com um debotado pano de chita de ramagens, uma carta, e nessa carta um nome, um lindo nome, um lindo nome d mulher: Maria del Pilar.

Não gritou, não disse nada: os pobres não gritam. A morte faz parte do seu lúgubre cortejo de amigos, tem um cantinho no seu leito e um lugar à mesa; quando chega, pode levar tudo; quando transpõe a porta, aberta de par em par, com a sua presa, não vê à sua volta, a escoltar-lhe o fatídico vulto negro, senão cabeças curvadas num gesto de resignação, braços caídos, braços de quem deu tudo, de quem não tem mais nada para dar. A dor dos pobres é resignada e calma; traz às vezes consigo as aparências da revolta, mas, no fundo, é cheia dum imenso, dum infinito desapego. Que lhes hão-de tirar que seja deles?! Aos pobres toda a gente chama desgraçados.

Havia muitos anos que aquela pobre, aquela desgraçada, sentia a morte rondar-lhe a porta. Ouvira-lhe, por muitas vezes, os passos ao longe, depois mais perto, mais perto, mais perto ainda, até pararem à porta... e a morte entrava. Levou-lhe a mãe, o pai, dois filhos pequeninos, uma filha de vinte anos, o marido, e por último entrara-lhe assim em casa, de repelão, sem prevenir, e fizera-lhe do coração um frangalho. A sua alma andara, como o seu corpo, sempre vestida de crepes; não se lembrava de a ter visto de branco. E resignada, doce, trazia no rosto fatigado, nas pálA Paixão de Manuel Garciapebras sempre descidas sobre os olhos cansados de chorar, na pálida boca dolorosa, o fatalismo dos que o destino marca para os não poupar durante uma vida inteira. Adivinhara há muito o doido segredo do filho, o segredo daquela paixão que o crucificara em vida, que o empurrara aos vinte e dois anos para o negrume da cova. Nunca dissera nada a ninguém. Para quê? Quando, naquele aziago anoitecer de Novembro, transpôs o limiar do quarto e viu o filho morto, não gemeu, não gritou. Para quê?...

Olhou-o longamente, profundamente, sem se atrever a entrar; por fim, nuns passos lentos e hirtos de sonâmbula, aproximou-se. Passou-lhe a mão pela cara intacta, acariciou-lhe os cabelos, levantando-os, descobrindo-lhe a testa, num gesto duma infinita doçura; depois, com um dedo, meigamente, seguiu-lhe os contornos da boca mole, a linha do nariz afilado, o queixo, como que para gravar melhor na mente, e para sempre, a imagem carnal do que tinha sido um filho, a benção dum filho. Fechou-lhe bem os olhos, como quando ele era pequenino e adormecia com os olhos entreabertos. Devagarinho, devagarinho, não fosse doer, num levíssimo gesto de piedade e amor, tacteou-lhe a ferida sangrenta no meio do peito como uma chaga. O sangue tingiu-lhe os dedos; pôs-se a olhá-los, e só então as lágrimas, lágrimas silenciosas, verdadeiras lágrimas de pobre, lhe correram em fio pelas rugas das faces.

Ter um filho novo, robusto, belo, e vê-lo ir, vê-lo partir um dia para nunca mais, romeiro perdido num caminho de desgraça! Ficar só, velha e pobre, sem o calor dum afago, -- que triste sorte, mais triste que tudo neste mundo! O filho das suas entranhas, que das suas dores nascera, que os seus peitos se criara, que ainda podia acalentar, deitar no colo beijar, começava já a ser, na solidão daquele quarto, uma saudade, uma recordação da sua vida solitária.

Lavou-lhe as mãos ensanguentadas, vestiu-lhe, sozinha, com o jeito de mãe que veste o filho pequenino, o seu fato novo, o seu fato preto dos domingos, calçou-o, penteou-o. Quando o avô chegou, o pobre velho de setenta anos que queria àquele único neto, ao filho do seu filho morto, como às meninas dos seus olhos, viu-o assim, já pronto a partir para a suprema ausência, que não tem regresso. Abanou a cabeça toda branca e desatou a soluçar, nuns soluços miudinhos de velho, num choro sem lágrimas que fazia dó. A mãe, nos últimos arranjos, dum lado para o outro no quarto, parava de vez em quando para enxugar, com a ponta do avental de chita preta, as lágrimas que continuavam a cair-lhe em fio pela cara abaixo e que a cegavam.

A carta, em cima da mesa, atraiu-lhe o olhar, com a usa brancura imóvel e fria; a carta parecia o selo sem esperança daquele túmulo, o selo maldito que a sorte aziaga imprimira, a fechar, para a eternidade, aquela vida ardente e moça. A mãe pegou nela docemente. Tremiam-lhe as mãos ao levantá-la de cima da mesa como se não pudessem com ela, com aquele fardo, como se a carta fosse assim como uma cruz de ferro onde o destino lhe crucificara o filho. Estava fechada; e então a mãe, ao lindo nome de mulher que as mãos morenas do filho tinham traçado na última hora da sua vida, acrescentou mentalmente o resto do nome que lá não estava, e que o seu triste coração de mãe adivinhara: Calderón de Ataíde.

Sim, o louco segredo do filho, do pobre operário canteiro, era aquele. A Maria del Pilar, a quem gritara de longe o seu doido amor, a sua cega paixão de romântico, não era, como à primeira vista poderia imaginar-se, a priminha afastada que de terras de Espanha viera há meses e que por aqui ficara, presa como andava a uns escuros olhos portugueses. Não era a costureirinha gentil com quem poderia ter criado um lar, um doce lar de pobres, como um ninho suspenso num beiral, a cabeça a tocar o tecto, o tecto quase ao pé do céu. Não, não era a moreninha espanhola, não era a andaluza de rosto tostado como duma gitana que andava pelas ruas com o chalinho traçado e os cabelos ao vento. Era a outra Maria del Pilar, a filha duma nobre espanhola e dum grande fidalgo português, era a loira princesinha, a fada dos seus sonhos de poeta, que um dia, dia aziago e fatal, avistara por entre as grades doiradas do seu jardim distante.

Quando a viu, endoideceu. Preso, embriagado, arrastado por aquela delirante paixão, nunca mais teve sossego nem descanso. A oficina de canteiro, propriedade do avô, era ao canto da rua; de lá avistava-se todo o jardim, a escadaria sumptuosa, os amplos salões de baile no rés-do-chão, as enumeras janelas dos aposentos particulares no primeiro e no segundo andar. Tinha ocasiões em que não tirava os olhos do palácio, via tudo quanto lá se passava, ao facto das saídas e entradas de toda a gente, espiava as idas e vindas dos criado e das visitas. Nas noites de baile, metia-se num canto sombrio do amplo portão da oficina, e ali passava a noite inteira a olhar as sombras que passavam ligeiras por de trás dos espessos cortinados de renda das janelas, como uma borboleta que a luz atraísse implacavelmente; só quando, de madrugada, via partir os últimos convidados, ou quando se apagava a última luz, é que ele se resolvia a voltar para casa, a passos lentos, transido de frio e com o coração num farrapo.

Outras vezes trabalhava, trabalhava febrilmente, sem descanso, o dia inteiro, numa exaltação de todos os seus nervos, numa ânsia de todo o seu ser, como se quisesse matar às marteladas qualquer ave de rapina que sentia roer-lhe as entranhas. E então fazia da pedra tudo quanto queria! O granito duro e informe parecia uma pasta mole, uma cera obediente, que ele talhava a seu belo prazer. Nesses dias, alheada de tudo, sem levantar a cabeça, enquanto a canção dos martelos ressoava alegre na oficina, fazia surgir de sob as suas mãos privilegiadas de artista, animadas por um mágico sopro de prodígio, as rendas mais subtis, as mais elegantes grinaldas, os mais complicados florões. Na figura, então, era assombroso, e os corpos eram uma maravilha de graça. Ninguém dispunha com mais arte as pregas dum manto, ninguém era capaz de enrolar com mais elegância as curvas caprichosas, as ondulações envolventes das roupagens roçagantes, em volta dum corpo de mármore cor-de-rosa. Todos os simbólicos vultos de túmulos, a saudade, a fé, as Musas e os Anjos, todos lhe saíam das mãos, não se sabia por que acaso, com o mesmo perfil finíssimo, o mesmo sorriso sinuoso, os mesmos contornos delicados dum rosto que o obcecava e que o trazia arredado do resto do mundo, com os mesmo corpos esbeltos de adolescentes puros talhados em linhas rígidas e hieráticas. Parecia que a pedra tinha a consciência da sua alta missão, o orgulho de, bruta e informe, realizar um sonho, ser transformada, por um raro prodígio de amor, numa Maria del Pilar que a paixão dum pobre divinizara.

E assim passaram largos anos. O extraordinário é que ninguém deu por isso. Os companheiros de oficina, embora o achassem bizarro e com uma grande telha, como eles diziam, nunca imaginaram, nem por sonhos, uma coisa daquelas. A sua grande paixão passou despercebida aos olhos de toda a gente. A não ser a mãe, que as mães nunca se enganam, porque têm os olhos no coração, ninguém viu coisa alguma. Também o caso era de tal forma extraordinário! Um Ruy Blas, canteiro!... Tão grande era a loucura, que só outro louco a poderia conceber no seu cérebro delirante.

Quando Manuel Garcia viu pela primeira vez a princesinha loira, através das grades doiradas do seu jardim distante, teria quando muito dezassete anos, e ela treze. Era uma rapariguinha travessa e estouvada, alegre como um céu de Abril; corria pelo jardim como uma corça selvagem, tranças loiras como uma cascata de oiro pelas costas; dava gritos agudos como um pardalinho novo que está contente com a vida, mas que não sabe cantar; as suas gargalhadas eram frescas como o riso dum regato a descer um monte. Aos olhos de Manuel Garcia, Maria del Pilar, no seu jardim, no meio das amigas, eram assim como um sol a iluminar os seixos escuros e desprezíveis das estradas. Que loucura!

E em tantos, tantos anos, nunca a loira fidalga olhara para ele. Não, ele não se lembrava de um só olhar, de sentir poisados nos dele uma só vez, de fugida, aqueles olhos verdes claros que o endoideciam de amor! Se ela tivesse olhado para ele ao menos uma vez na vida! Mas não... no seu mesquinho tesoiro de apaixonado, não encontrava nada, por mais que procurasse, por mais que remexesse, que se assemelhasse ao doce fulgor de duas límpidas esmeraldas claras. Esse prodígio, esse milagre, não se dera nunca! Um olhar! Mas se ele tivesse achado, no seu mesquinho tesoiro de apaixonado, um só olhar de Maria del Pilar, não estaria decerto ali rígido, inerte, gelado!

O seu mesquinho tesoiro continha apenas as parcelas de oiro do seu riso, o encanto do seu alado pisar de alvéloa, a embriaguez do seu perfume, a cor dos seus vestidos, o deslumbramento da sua presença, da sua recordação intangível e sagrada, do seu ser, dela, Maria del Pilar, princesinha loira, que, com as suas mãos de boneca, o empurrara para a cova sem o saber, fizera do rapagão moreno e cheio de vida, que ele era, o trapo que ali jazia, insensível e inútil.

De tangível e concreto, apenas uma rosa que ela deixara cair uma manhã, na rua. Ia num grupo de rapazes e raparigas; vestida de branco, calçada de camurça branca, os cabelos, de fartos caracóis loiros, cingidos por uma larga fita branca, ia jogar o ténis a um palacete vizinho. Levava na mão uma soberba Bryce Ellan, dum lindo róseo acarminado, acabada de colher, de passagem, no jardim. Com um golpe de raquette, atirou-a, de brincadeira, à cara dum rapaz alto e loiro que, desastrado, a não conseguiu agarrar. Quando se afastaram, e o vestido dela não foi mais que uma mancha clara na estrada cheia de sol, o pobre canteiro foi apanhá-la à rua com o carinho de quem levanta do chão um bebé magoado, lavado em lágrimas e com o vestidinho sujo. Entrou na loja e delicadamente, com uma paciência infinita, com mil cuidados, lavou-a pétala por pétala, tirou-lhe todo o pó, e guardou-a sem sequer se atrever a beijá-la.

Maria del Pilar, tão perto, estava longe, mais longe que as terras longínquas de Além-Mar, mais longe que uma estrela cadente que nem o pensamento a pode seguir pelos céus fora, mas estava ali; não era dele, não, meu Deus! Não a podia cobiçar sequer, mas não era de ninguém. Vaso sagrado por onde nenhuma boca matara a sede, templo que nenhuns passos tinham profanado ainda, torre de marfim do seu amor a que nenhum olhar subira, não era dele, não, mas era a Pura, a Intangível, era A que não era de ninguém!

E Manuel Garcia ia vivendo, talhando a pedra, sereno e mudo, numa castidade absoluta, como um monge ascético dentro da sua Cartuxa de sonhos, com a inconsciência de uma criança que vai, numa noite sem lua, costeando um abismo, a rir e a cantar.

Mas um dia – dia maldito aquele! – a noticia do casamento de Maria del Pilar rodopiou vertiginosa, como um súbito ciclone, arrastando tudo na sua pobre existência de simples, cheia, a transbordar, das migalhas dum sonho. Assombrou-o. quando o soube, na oficina, ficou pregado ao chão, a tremer, na desvairada tremura duma árvore velhinha sacudida pela nortada. Á volta, os camaradas, o avô, comentavam tranquilamente o caso, continuando, indiferentes, a sua tarefa. A filha do fidalgo tinha sido pedida em casamento por aquele rapaz espanhol, D. João Manuel, que a acompanhava sempre por toda a parte. Um casamento de estrondo! Fidalgos novos, ricos, bonitos… que lindo par! Que lindo par!” repetiu uma estranha voz de sonâmbulo. E os muros, as pedras, começaram a dançar-lhe, diante dos olhos esgazeados, a dança macabra do seu destino perdido. Pobre poeta! Com o brutal encontrão, acordou sobressaltado do êxtase de tantos anos e deu com os olhos na miséria da vida! Tinha adormecido criança, despertou homem feito e, espavorido, estendeu as mãos para agarrar toda a sua linda adolescência inverosímil e quimérica que lhe fugia. As estátuas, os companheiros, os blocos de pedra, tudo rodopiava em volta, numa vertigem que não conseguiu vencer. Apoiou-se pesadamente à pedra que trabalhava e, muito pálido, foi escorregando devagarinho, até cair como um boneco, a quem um bebé, curioso e azougado, tivesse cortado os fios da sua pobre existência de fantoche, que vivera duma mentira uma vida que não passara de ilusão.

Quando voltou a si, circunvagou os olhos pelo quarto e viu a mãe, encostada à cabeceira da cama, fitando-o. que estranho poder de videntes têm uns olhos de mãe! Manuel Garcia compreendeu que o seu segredo não era só dele, mas teve vergonha, corou, desviou os olhos. A mãe, com o pudor receoso de quem surpreende um mistério inquietante, calou-se, abafando um suspiro.

E a vida continuou. Manuel, cada vez mais encerrado no seu gelado mutismo, começara a viver uma vida desregrada. A sua casta mocidade afundava-se num lodaçal de vícios. De olhos fitos no topo do seu calvário distante, onde numa hora de suprema coragem encontraria a morte redentora, atolou-se, na medonha subida, em todos os charcos do caminho. Há quem suba a descer. Há almas privilegiadas e únicas que nada têm a ver com a lógica absurda das leis humanas. As turbas inconscientes e boçais lançam, à face de certos entes, anátemas que o céu, se o há, não deve perdoar. À gargalhada insultante deste mundo responde a infinita serenidade do que fica para Além e que os olhos míopes não vêem. Manuel subia a descer…

Quando o que lhe ficou para trás não foi mais que um ponto perdido no desapego de tudo a que chegara, quando conseguiu, finalmente, arrancar de si os pedaços irreconhecíveis do seu sonho desfeito, Manuel Garcia olhou face a face a vida, e sorriu. Oh, o sorriso de desdém dos que querem morrer! Quem foi que se atreveu a dizer alguma vez, quem foi que ousou traçar num papel as letras da palavra cobardia, falando dum suicida?! Oh a medonha coragem dos que vão arrancando de si, dia a dia, a doçura da saudade do que passou, o encanto novo da esperança do que há-de vir, e que serenamente, desdenhosamente, sem saudades nem esperanças, partem um dia sem saber para onde, aventureiros da morte, emigrantes sem eira bem beira, audaciosos esquadrinhadores de abismos mais negros e mais misteriosos que todos os abismos escancarados destes mundo! Quem foi que um dia ousou lançar a um papel as letras ultrajantes da palavra cobardia, essa suprema afronta, esse insultante escarro, á face dos que querem morrer?!

O que lhes foi preciso de coragem desdenhosa, de altiva serenidade, de profundíssimo desprezo, às almas que partiram por querer!

Manuel Garcia lutou um ano, e conseguiu vencer a vida, vencendo-se. Ao pavor do fim, ao medo do sofrimento, ao horror do gesto, daquele gesto que é ainda consciente e que vai deixar de o ser, o gesto para além do qual a nossa vontade, quebrada, não tem poder algum, que é o último antes do pavoroso mistério, a tudo isto, a todos estes fantasmas contra quem lutara um ano inteiro, respondeu ele, um dia, com um sorriso... e que sorriso!...

E foi assim que, na penumbra fechada dum crepúsculo de Novembro, Manuel Garcia meteu uma bala no peito, depois de escrever num papel frases de amor a uma princesinha loira, depois de lhe ter traçado o nome, o lindo nome que cheira a jardins de Espanha, num quadradinho branco, onde as últimas lágrimas dos seus olhos caíam e secaram.

No quarto do morto, agora, só se ouviam os soluços miudinhos do velho, sentado aos pés da cama. A mãe tronou a pegar na carta, cuja brancura, sobre o vermelho do pano de ramagens, a hipnotizava. Pensativa, olhou-a longamente, tornou a poisá-la. Foi á janela, abriu-a, e debruçou-se no abismo da noite. A rua era um poço sem fundo. A chuva, que até ali caíra delgada como uma bruma, começava a engrossar. O palácio dos Ataídes, lá em baixo, na volta para a estrada, faiscava de luzes. Eram dez horas. Começava o baile, o grande baile que os pais da noiva ofereciam a todos os grandes nomes da capital, pelo casamento da filha. Maria del Pilar tinha casado, doze horas antes, na capela do palácio.

A pobre mãe abafou um soluço, voltou-se, e olhou o morto. A débil chama das velas, que o vento tornava movediça, traçava-lhe no rosto sombras e clarões, tirando-o da imobilidade da morte, para o lançar na animação fictícia da vida; a olímpia serenidade dos libertados transformava-se: a boca parecia sorrir num esgar de desdém, os olhos pareciam abrir-se e pestanejar como se lá dentro as pupilas quisessem ver. Ver o quê, meu pobre adolescente que morreste velho?

Ver o quê?... a vida que, numa grotesca ironia, te fez nascer na casinha dum pobre, a ti, a quem o destino cego dera a alma, coroada de rosas e verbenas, dum grego doutros tempos?! Tudo em ti era beleza, poesia e graça... e tudo isso a vida, miserável e trocista, vestiu com o cotim do teu pobre fatinho de semana, com o teu ridículo e mesquinho fato novo dos domingos! Quem dirá a estes troçados da vida o porquê do seu destino, a razão do engano que os fez nascer pastores filhos de reis!...

A mãe tornou a debruçar-se sobre o negrume da rua. A chuva, agora, caía em enxurrada, como se o céu quisesse lavar o mundo de todos os seus maus pensamentos e acções. Buzinas de automóveis... um grito... passos que se esvaíam na sombra... Ao longe, um cão perdido uivava a miséria de ter nascido sem dono. Com os olhos fitos nas luzes do palácio, na fila ziguezagueante dos autos donde desciam sem cessar vultos negros, que se sumiam no pórtico todo iluminado, como a entrada dum palácio dum conto de fadas, a cabeça reclinada sobre o rebordo da janela, a mãe pôs-se a cismar. Que dois mundos tão diferentes! A noite e o dia, a luz e as trevas... Aos seus lábios resignados subiu a revolta duma blasfémia; o coração esmagou-se-lhe, num arranco, de encontro ao seu magro peito de velha. Teve vontade de uivar como aquele cão sem dono, de se deitar na lama da rua, de bruços, com a boca na terra, rastejando, como um bicho, amortalhada na frescura daquela chuva que continuava a encharcar tudo, como se para além das quatro paredes daquele quarto o mundo acabasse num novo dilúvio. Ao seu coração subiu de repente o desejo, tenaz como uma ideia fixa, de catástrofes inauditas; os seus olhos traídos a visão de casas a desmoronar-se, de labaredas a flamejar, de mãos de assassinos e de incendiários abrindo todas as portas. As suas mãos estenderam-se também, empunhando o facho incendiário, brandindo o punhal assassino nas sombras da noite. Que não ficasse pedra sobre pedra, que os campos fossem rasos, secos, rapados por todas as pragas que sobre eles caíssem em maldição! E a última visão do mundo desaparecido, engolido pela vastidão de enormes oceanos e, à tona d’água, a boiar, o esquife onde o filho dormia repoisadamente, embalado em cadência pelo ritmo das ondas!

Soltou um suspiro, como se lhe arrancassem o coração. Todos os seus longos anos de renúncia e sacrifício vieram em procissão, das sombras da noite, acalmá-la, exorcizando os pássaros negros das suas trágicas alucinações, abatendo o pendão sangrento da revolta. Passou a mão pela testa, pela cabeça branca, que a chuva molhara. De repente, lembrou-se da carta que o filho tinha escrito a uma Maria del Pilar que , àquela hora dança, vestida de branco, nos braços doutro. Não... Eu sei. A carta vai ser entregue à outra, à pobrezinha por quem tu morreste. Eu sei. Cala-te. Não chores. Está sossegado.

Pareceu-lhe então ver na boca do filho um eflúvio de sorriso. Sim, era isso que ele queria. A carta era para a costureirinha, para a morena andaluza, de rosto tostado de gitana; pois para quem havia de ser? Ele não conhecia outra Maria del Pilar!...

E, devagarinho, sempre a olhar a boca do filho, onde o sorriso se acentuava mais luminoso e enternecido, foi à mesa, pegou na carta, tornou a poisá-la e, a tremer, escreveu o resto do nome que lá faltava, o nome plebeu e obscuro duma triste costureirinha que passara a vida a amar, sem nunca se julgar amada: Sánches.

Poisou a pena, olhou o morto com uns olhos onde havia uma sombra de inquietação, uns olhos interrogadores e tristes; a pouco e pouco, porém, o olhar foi-lhe tomando uma grande expressão de serenidade, e a sua boca pálida e triste de velhinha respondeu com um sorriso ao sorriso do filho.


Florbela Espanca

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Carta, a Rita

É utopia pensar numa sociedade, multi-cultural, organizada na planificação dos recursos, onde o trabalho faça parte duma vida feliz em harmonia com lazeres cada vez mais prolongados para nos conquistarmos a nós e aos nossos amores.

Desde muito novo que acho uma brutalidade as mães largarem os filhos em idade bebés. Os pais tem de ir trabalhar, infelizmente esta família doente produz esses desamores, com os mais velhos é nítido o interesse em a organização social cuidar mal deles dando perfeitamente a entender que quanto mais depressa morrerem melhor, analisando as reformas que as pessoas têm originadas por ordenados baixíssimos, quando as empresas devem milhões há segurança social; não pode haver desculpa, temos de produzir de qualquer maneira a efectivarmos uma vida digna a todos os humanos, senão somos muito irracionais e sem dignidade espiritual na relação com o nosso exterior que também somos nós!


Se for utopia, é um sonho tão nítido que me sinto muito bem a pensar assim, sabendo que somos cada vez mais a sentir o mesmo. Conhecendo um pouco de História e Presente, no progresso tecnológico, sabemos que é possível conquistar-nos. Tenho uma clareza quase absoluta que andamos meio perdidos numa selva cerrada fora do nosso ambiente, onde nem nos sabemos alimentar e o oásis está mesmo ali à vista pra além daquele ramo de arbusto onde pudemos brincar sempre.
As lutas são as Olimpíadas sem drogas, numa esperança de vida entre os duzentos e os duzentos e cinquenta, daqui a duas gerações. Risos.


É um lamento não semear esta ideia.

Venerando-te


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Alma minha, Braços teus...

hoje, se pudesse, vestia a Alma, olhava-me no espelho, desenharia e ensaiaria o melhor sorriso, plantaria felicidade pelo cabelo e sairia, julgando-me igual entre os demais.

e eles olhar-me-iam, acreditariam em mim como mais um, um qualquer, e sentir-se-iam regulares no ser e no estar.

os passeios empedrados seriam a minha confiança, a minha determinação, a minha aparência e a minha riqueza.

em casa, à noite, despir-me-ia. frente a ti, colocaria a minha Alma a nú, verdadeira e pura e choraria até ao outro dia a Dor de se me sentir condenado a não poder ser eu fora do teu olhar.

porque só os teus braços têm a medida para quem eu sou, a boca para me falar, o olhar para me receber, as palavras para me falar do que eu gosto, a atenção e o carinho para me compreender.

por isso a minha Vida é uma eterna saudade de viver cada dia esperando a noite para Ser.

Alma


sexta-feira, 16 de maio de 2008

ALVORECERES


O amor não cabendo no abraçar,
Nem na alma dum corpo que se abre
Em sede de fogo, fere como sabre
E nem tu, nem eu podemos alcançar


Palavras que são sangue, no seu nascer,
Perdem o rumo. Embriagadas plo vento
Movem-se em escuros céus como um lamento
De guitarras, fados de vida, sofrer...


Vindos plas nuvens, asas do tempo,
Novos mundos, novos alvoreceres,
Enredam-nos numa febre de prazeres
Trazendo à alma misterioso alento...


Júlia Molico

domingo, 27 de abril de 2008

Maldita Cocaína

video

Tanto que se poderia dizer sobre a maldita Cocaína, tão cara que fica ao chegar ao consumidor.
Falando da pouquíssima experiência, sempre posso adiantar que é uma viagem magnífica e isso tem de ser dito para que a informação seja correcta, deveríamos desconfiar da informação que nos chega afirmando peremptoriamente que a droga é um monstro que mata e mata rápido no caso de algumas delas. E nunca, ou raramente se ouve dizer que há drogas extremamente perigosas que matam depressa mas que proporcionam viagens esplendorosas e isso deve ser dito para não cairmos na asneira de enganarmos os iniciantes.
Há drogas que agarram (viciam) mais depressa que a Cocaína, embora ela seja considerada uma droga dura, portanto de viciação rápida, uma dependência poderosa.
Pode ainda ser tomada de duas maneiras distintas, snifando, inalando pelas narinas, ou de forma injectável para a veia, neste caso a viagem começa com o chamado flash, ou seja, é brusca a chegada do produto ao cérebro e provoca uma tal sensação que o verdadeiro "junkie" viajante não dispensa, muito sinceramente não conheço, mas avaliando pelos testemunhos imensos, nem duvido.

Defensor da liberalização das drogas todas e da livre comercialização das chamadas drogas leves; café, tabaco, cannabis, álcool, embora proibindo a sua publicidade, intransigentemente! O que esta sociedade faz em relação ao álcool é um autêntico assassínio popular, não informando da dureza dessa droga que tanto flagelo provoca a todos nós, colectivo. Temos mais de um milhão de alcoólicos, mas a sofrer com a doença, seremos muitos mais. A violência doméstica, normalmente provocada pelo macho, vamos dizer assim, na maioria dos casos esconde um alcoólico. As mulheres cada vez bebem mais álcool e começam cada vez mais cedo, por falar em mais cedo, é verdadeiramente chocante a idade com que as pessoas começam a beber, para não falar das célebres sopas de "cavalo cansado" salazarentas, lembram-se? Não ouviram falar? o pão com o vinho dado às crianças como alimento que fortalece e aquece, e era cultural em diversas zonas deste belo país tão atrasado que era e tão atrasado que continua. A moda juvenil dos shots é uma vergonha para todos, só quem ainda não presenciou a forma rápida e forte como as pessoas se embebedam de cair para o lado e chão num quarto de hora, uma autêntica miséria! Vergonha!

Não quero entrar em detalhes técnicos que desconheço na plenitude, mas quero lembrar que o vinho a fermentar não é um espectáculo agradável, se dissessem às pessoas que aquilo era o vinho, a maioria não acreditava, só para dizer que por vezes a matéria passa por estados intermédios que nada têm a ver com o produto final, nada!

Por um mundo sem drogas, naturalmente, numa sociedade sã como todos pretendemos, mas como temos de partir de onde nos encontramos, precisamos de informar as pessoas correctamente e tratar os doentes que precisem de ser tratados.

Quanto às liberalização das drogas, era para isso precisamente, um controle de qualidade sério, evitando acidentes desnecessários, que podem ser mortais e para acabarmos com os "dealers", os parasitas que vivem à custa de quem vai consumindo, de quem vai morrendo.

Venerando-os

terça-feira, 22 de abril de 2008

A Net por pretexto (conto erótico)

DE:»L?ã?¤Ðå¤Met?o«

Um dos motivos pelos quais sempre reluto um pouco em ir à minha casa de praia reside no fato de lá não ter Internet.
Sim! Detesto admitir isso, mas acabei viciando na tal da “telinha”.
Em janeiro último, lá na praia, para minha surpresa, haviam construído mais um casarão na minha rua. Gente de Joinville, me disseram.
Muro alto, gente arredia, fechada. Garagem com portão eletrônico da qual só se via um Alpha Romeo preto entrar e sair voando.
Bem ... aquilo não me dizia respeito.
Numa daquelas manhãs em que acordei super cedo, pelo fato de ter ido dormir muito cedo na véspera, pulei dentro da sunga, catei minha câmera fotográfica e uma toalha e me fui à praia para ver e fotografar o raiar do sol sobre o mar.
Lá chegando, estendi a toalha e me acomodei, pois a aurora nem ainda pintara o céu.
Alguns instantes se passaram e notei que alguém vinha descendo rumo à praia. Pelo jeito de caminhar vi que se tratava de uma mulher.
Estranhei que se aproximasse de mim sem receio, pois a escuridão ainda imperava.
- “Madrugando na praia?” perguntou-me sem cerimônias.
- “É! Caí da cama e perdi o sono!” respondi sorrindo.
- “Você mora na edícula de janelas marrons, né?”
- “Isso mesmo!” respondi surpreso.
- “E você? Onde mora? Como me conhece?” perguntei.
- “A casa de praia de meus pais ficou pronta em novembro, aquele sobrado perto de você. Vi você carpindo seu quintal outro dia. Por isso o reconheci.”
Levantei-me, estendi minha mão e a cumprimentei me apresentando.
Depois de rápidas palavras, estendi melhor a toalha e nos sentamos lado a lado. Como viu que eu fumava, pediu-me um cigarro.
Ficamos ali, pitando, e olhando o mar na direção que a aurora já coloria com os primeiros matizes de um novo dia.
- “Você também levantou cedo!” falei.
- “Não! Na realidade nem dormi ainda! Passei a noite na Net!” replicou.
Não consegui segurar o riso. E rimos bastante ao confessarmos nosso vício mútuo.
Preparei minha câmera e assim que o sol começou a dar seu espetáculo gastei um filme de 24 poses com aquela maravilha de aurora.
Cristina (assim se chamava a vizinha) a tudo acompanhava interessada e três fotos lhe foram dirigidas com alegria.
- “Logo mando revelar e faço cópia para você também!” lhe falei.
Agora que sol já iluminava tudo, pude constatar a beleza marota de Cristina. Uma mulher de cerca de 1.70m, cabelos castanhos longos e rebeldes, pele clara, um corpo sensual e atraente.
Seu sorriso é que mexeu comigo. Uma boca super sensual, emoldurada por um rosto com uma leve expressão de malícia.
- “Bom! O papo está bom, o dia vai ser lindo, mas o sono está me apertando!” falou-me ela por entre um bocejo.
- “Vou dormir!” disse sorrindo.
- “Também vou subir para casa!” falei, enquanto recolhia tudo e começava a acompanhá-la.
- “Se quiser usar a Internet, pode aparecer lá em casa! Há dois computadores lá, o meu e o de meu irmão que está na Alemanha!” falou-me em meio a um sorriso meio enigmático.
Antes de nos despedirmos, em frente a minha casa, dei-lhe o número de meu celular e, quando me falou que estava sozinha na praia (seus pais haviam viajado), me coloquei a sua disposição para qualquer eventualidade. Ela deu uma piscada intrigante e se foi.
Entrei em casa e me fui ao chuveiro tirar a costumeira areia de praia que gruda na gente.
Enquanto me lavava naquela água quentinha, que contrastava com o ainda frescor da manhã do litoral, o contato suave e deslizante do sabonete e a lembrança de Cristina provocaram-me uma ereção gostosa. Lavava o pau e o saco sem parar enquanto que ele, rubro e latejante, empinado e arrogante, se deliciava com o contato. Masturbei gostoso até grossos e abundantes jatos de esperma espirrarem contra os azulejos do box. Um gozo indescritível todo tremido e espasmado tomou conta de mim, deixando me completamente relaxado debaixo do jato forte e quente do chuveiro.
Constatei então que estava querendo aquela mulher. Se só pensando nela havia gozado daquele jeito, como não seria se a fodesse gostoso?
Lembrei do sorriso malicioso e enigmático dela, na hora em que me ofereceu o uso da Internet em sua casa. E lembrei-me da não menos intrigante piscada que me deu ao ir para sua casa.
Aos poucos "a ficha ia caindo", e me dei por conta que aquela mulher praticamente havia me "cantado", sem que na hora o tivesse percebido.
E agora! O que fazer? Ela tinha o número do meu celular, mas eu não tinha o dela. Ir a casa dela e simplesmente tocar a campainha? Não! Não faria isso.
À tarde, depois do almoço, dormi gostoso até as três e meia e depois fui me espreguiçar na praia. Adoro minha praia, pois durante a semana costuma ter pouca gente.
Já na boca da noite subi para casa, pois estava com saudade dum bom chimarrão.
Sentei na varanda com a cuia na mão e estava absorto em meus pensamentos quando meu celular tocou.
- "É Cristina! Como vai?" perguntou.
- "Já dormiu que chega?" perguntei sorrindo.
- "Sim! E você? Tá pronto prá noite?" perguntou.
Estranhei a pergunta, mas respondi que sim. Com ela estaria pronto para tudo, pensei.
- "Espero vc a partir das nove horas então!" falou.
- "OK! Estarei aí às nove!" respondi.
E agora? Meu coração batia mais forte que o normal. A imagem de Cristina, aquela fêmea gostosa e maliciosa, não me saía da lembrança. Rolaria algo? Ou somente baixaria meus E-mails e voltaria prá casa?
Tomei chimarrão mais um pouco, tentando me acalmar, e fui buscar pão e leite para o lanche da noite e para o café da manhã seguinte.
Depois do lanche passei a "matar tempo" diante da TV (que na minha praia não pega nada) e as oito e meia tomei aquele banho caprichado, com direito a tudo.
Com a barba bem feita, perfume discreto, e com pouca vergonha na cara, toquei a campainha na casa de Cristina às nove horas em ponto.
Recebeu-me com o mesmo sorriso que já me inebriava e levou-me a um apartamento meio isolado da casa, dizendo ser de seu irmão.
Ligou o computador para mim e falou que me sentisse à vontade.
- "Vou ver meus mails também!" falou sorrindo e saindo do quarto.
Entrei na net, na minha conta do hotmail, e vi meus mails (nada de interessante).
Entrei então na minha sala de Chat favorita e estava de papo com a turma, quando o sussurro começou a piscar.
Como eu havia dito a Cristina o nick que costumava usar nos chats, ela havia me localizado e me chamava, dizendo que seu PC estava com problemas.
- "Venha aqui no meu quarto, no corredor, o último à direita!" falou.
Saí da sala de Chat e da net e fui na direção que me falara.
Bati na porta e ela mandou entrar.

- "Desculpe! Não se assuste! Mas com esse calor todo, gosto de ficar bem à vontade!" falou.
Cristine estava sentada diante do PC só de calcinhas.
Quase morri de susto e de tesão na mesma hora. Aquele sorriso convidativo, aquela pele desnudada, aqueles seios gostosos desgovernaram qualquer sensatez e me rendi ao momento.
Aproximei-me dela, a ergui e a beijei terna mas esfomeadamente.
- "Deixemos seu PC para mais tarde!" falei em seus ouvidos enquanto a beijava com crescente tesão.
Aquela boca gostosa e molhada e aquela língua provocativa e nervosa me deixaram doido. Adoro beijos super molhados, saliva escorrendo e sendo lambida.
Cristina foi tirando minha camisa às pressas e minhas calças caíram no chão de imediato.
Conduziu-me na direção de um sofá, próximo ao PC, e ali caí sentado com aquela deusa entre minhas coxas, me chupando com fúria.
Que coisa de louco aquele oral. Cristine chupava com força, com desespero, ia engolindo meu pau com volúpia, enquanto habilmente massageava meu saco. Verdadeiros choques elétricos se formavam em minha coluna e, sem nenhuma defesa, sem que pudesse frear ou evitar, explodi num gozo farto, majestoso, inundando aquela boca quente e sedenta de todo o leite que dispunha no momento.
Depois de sorver-me, como uma criança gulosa sorve um picolé, olhou-me nos olhos e perguntou se havia gozado gostoso.
Puxei-a sobre mim e beijei aquela boca adorável, sentindo o meu próprio gosto ainda lá.
Acariciei e mamei aqueles seios empinados e gostosos arrancando de Cristine gemidos crescentes.
Beijei lhe o ventre e ensopei sua calcinha com minha boca e com minha língua que lhe ia de virilha a virilha, de coxa a coxa, enquanto sentia o cheiro de cio que lhe brotava da vagina, totalmente melada e já parcialmente aberta à espera.
Puxei-lhe a calcinha para baixo, no que me ajudou, ajoelhei-me no grosso tapete que havia em frente ao sofá, e mergulhei minha boca naquela vagina pulsante, à espera do gozo. Seu grelhinho palpitava tenso, os lábios escancarados, o meladinho já lhe escorrendo rumo ao ânus. Minha mão acariciava aquela gruta de prazer e, com o dedo bem melado no seu próprio sumo, fui entrando naquele cuzinho apertado que lentamente relaxava e me permitia a entrada.
Cristine já gritava nesta hora; o gozo lhe chegava apressado.
Chupei e lambi aquele grelhinho salgado por mais alguns segundos, continuando a enfiar-lhe o dedo melado no cuzinho quando começou a gemer e choramingar num orgasmo sacudido e tremido.
Continuei a chupar e lamber até o fim de seu êxtase e então voltei minha atenção para aquela boca gostosa, da qual já tinha saudade.
Nos beijávamos longamente, interrompidos apenas pela necessidade de respirar.
Ainda ofegante, com suor escorrendo, Cristine começou a me acariciar as costas enquanto nos beijávamos, arranhando de leve minha pele. Beijava-me os ouvidos, lambendo-os com a língua molhada e quente.
- "Me come gostoso, meu rei, coma sua putinha, coma!" sussurrava, deixando-me doido de excitação.
Entrei naquela boceta ensopada de uma só vez e a galopei forte, quase com raiva, estocando fundo, ao som do sofá que rangia. Cristina soltava gritinhos e gemidos que me orientavam quanto a seu estado de excitação.
Quando senti que ela estava chegando lá, liberei a atenção e gozamos juntos em meio a gemidos fortes, quase desesperados.
Fomos ao chuveiro, pois estávamos ambos escorridos de suor. Nos lavamos debaixo da ducha e ali mesmo novamente nos chupamos até o terceiro gozo da noite.
Nos amamos muito naquele verão. Quase que cada dia.
Nos amamos virtualmente pela Internet, diversas vezes depois daquele verão.
Hoje Cristine está casada. Já tem seus filhos.
Quando nos vemos na praia, nos sorrimos, nos cumprimentamos, mas ... a vida continua.

terça-feira, 18 de março de 2008

Nightwish em Portugal



Coliseu de Lisboa 19 de Abril – 21h00 (abertura de portas às 20h00) *

A banda finlandesa de metal sinfónico, Nightwish, vem a Portugal para duas actuações nos Coliseus do Porto, 18 de Abril, e de Lisboa, 19 de Abril, em apresentação do novo álbum “Dark Passion Play”. Detentores de uma sonoridade única, que veio a ter muitos seguidores, como os Within Temptation, os Nightwish surgiram em Kitee, na Finlândia, em 1996. O nome Nightwish deriva da primeira música que a banda gravou e que viria a ser incluída na primeira Demo. Em 1997 editaram o primeiro álbum, “Angels Fall First”, que atingiu o terceiro lugar do top finlandês. Seguiu-se “Oceanborn” - editado em 1998, mostrava uns Nightwish mais técnicos e progressivos, ao nível da escrita e dos arranjos. O álbum atingiu o galardão de Ouro em mais do que um país e confirmou os Nightwish como um fenómeno a seguir. Dois anos volvidos lançaram “Wishmaster”, disco que entrou directamente para o primeiro lugar do top finlandês. Após o sucesso alcançado na Europa, os Nightwish começaram também a dar que falar nos Estados Unidos. ”Century Child” de 2002, atingiu o Disco de Ouro em apenas duas horas, chegando mais tarde à dupla-platina! Mantendo uma profícua carreira, editaram em 2004, “Once” – mais um enorme sucesso comercial em toda a Europa. Em 2007, chegou “Dark Passion Play” - o disco com o maior investimento de sempre da história da Finlândia, contou com a colaboração de 175 músicos! O resultado final é épico! A reputada revista britânica Kerrang! atribuiu ao álbum nota máxima, 5/5, considerando-o um clássico. Em termos comerciais, o disco entrou directamente para o primeiro lugar dos tops de vendas na Alemanha, Finlândia, Suiça, Hungria e Croácia. Em Abril sobem ao palco dos Coliseus de Porto e Lisboa, 18 e 19 de Abril, respectivamente, para dois concertos que certamente não vão deixar indiferentes os muitos fãs que os Nightwish têm em Portugal!

quinta-feira, 13 de março de 2008

sonho

Agora sonho com anjos.
Esta febre ópia mata-me de real.


Anjos sem asas voam
-me
Pela memória até ao sangue.

Nascidos dos orgasmos passados

E desejos futuros.

Acorda-me... devagar...

Abdul-Hamid

segunda-feira, 10 de março de 2008

Devagar

Devagar,

Hora a hora,

Dia a dia,

Como se o tempo fosse um banho de acidez,

Vou vendo com mais nitidez

O negativo da fotografia.



Miguel Torga

segunda-feira, 3 de março de 2008

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais profunda que a tua.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo (1958)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Bye Bye Blackbird by Peggy Lee

Menina Mulher

Nascimento de Vénus, de William-Adolphe Bouguereau

A poesia é carne e alma
dentro da língua dos poetas
nos desassossegos das idades
pequena e imensa de desejos
nesta recusa de falar das tristezas
assim sou sem disfarce, nesta entrega
dou o meu sangue ao que acredito
nestes delírios de sentir e amar
numa sede imensa que carrego
num perpétuo sonho com a poesia
numa revelação sem tempo

Nunca aprendi os agrados falsos
só tenho o que sou capaz de aprender
as coisas do amor são difíceis
no mar que está em mim, correntes
ondas, algas, areias, peixes, marés
mas e eu que insisto em ver
os verdes, os azuis, as ondas
os horizontes em cantos
por isso insistem em me dizer menina
Não vêem a mulher
que atrai as águas em cantos de paixão,
que desenha as secretas vozes de sal e
escava corações com imagens e palavras

Guardo um lobo nos meus sonos
não semearei desgostos maiores
nas noites de ventos
Vi sempre as estrelas
apoquentada pelos silêncios
emudeço a minha voz
logo me deleito com os sons
do marulhar ao longe
nesta cidade que me abriga, onde
caminho dentro de mim
as memórias jogam entre si
depois de nada me servirá dizer
mulher menina mulher

Constança de Almeida Lucas

Babel

Segundo o livro bíblico Géneses os descendentes de Noé, o que se safou do dilúvio, com a finalidade de chegar aos céus começaram a construir uma torre que deveria ser enormíssima. A Torre de Babel. Ao que Jeová – Deus do Antigo Testamento, danado com tal ousadia fez com que os construtores começassem a falar línguas diferentes para que assim não se entendessem e não levassem avante aquela magnânima obra de engenharia, da terra ao céu, justificando os diversos idiomas pós diluvianos.

Nem tem discussão o avanço tecnológico; as telecomunicações, os transportes de alta velocidade, viagens espaciais com a instalação tão útil dos policias satélites, enfim… no campo da medicina, todos progressos conhecidos, os diversos transplantes, descoberta do ADN, tem o ser humano capacidade de clonagem de tecidos ou órgãos, até seres completos. Fomos à Lua, naquela corrida contra os russos, vamos a Marte tirar fotografias e recolher amostras para os cientistas, etc..

Porém, em matéria da dignidade humana, para não lhe chamar dos direitos humanos, estamos muito longe de um desenvolvimento aceitável, aquém dos progressos científicos. Descobrimos e desenvolvemos novas estradas de comunicação; com a Internet ficamos com a sensação que o mundo está ligado, comunica, mas é precisamente nesta matéria que falhamos redondamente, temos os meios, mas não nos ligamos, recolhemos informação, mas não aplicamos os conhecimentos, será sempre necessário um bom processamento dessa informação e agir. Louvadas as mobilizações globais convocadas através na Rede, mas representam muito pouco, exige-se mais. Uma boa dose de autocrítica que nos facilitará a humildade necessária para o entendimento, é também o problema do companheiro ao lado e que juntos, até porque pensamos mais, podemos alcançar a qualidade de vida, desejada.

Não é assim, talvez por maldade de Jeová, a coisa parece a “verdadeira” Torre de Babel, evidentemente que estava o mundo na maior se o problema fosse português e fora tudo estivesse muito bem, mas não, muito pelo contrário, como muito bem mostra o filme, BABEL, que merece a nossa atenção, chega a ser penoso verificar como este mundo perde as pessoas, nos atrapalhamos uns aos outros pela falta de comunicação, incrível, com a gravidade que implica e a infelicidade gerada. Mais uma vez fica em evidência que quanto mais pobres somos, maiores são as dificuldades em nos fazermos entender, até porque a riqueza traz o poder que facilita a demonstração da nossa razão e nem é preciso comunicar muito, fala a prepotência.

Infelizes aqueles que não conseguem olhar a humanidade como um todo, nos direitos e no respeito, na dignidade, muito infelizes são.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Vida e morte II

"Deu o vento, levantou-se o pó:parou o vento, caiu. Deu o vento, eis o pó levantado: estes são os vivos. Parou o vento, eis o pó caído;estes são os mortos. Os vivos, pó, os mortos, pó: os vivos pó levantado, os mortos pó caído; os vivos, pó com vento, e por isso vãos; os mortos pó sem vento, e por isso sem vaidade. Esta é a distinção, e não há outra".
Padre António Vieira, Sermão de Quarta-feira de Cinzas, 1672

Vida e morte I

"Falamos incessantemente do amor, confundimo-lo com o desejo, a saudade, a solidao e o desespero, enfiamos na palavra amor tudo o que dentro de nós é escuro - e esquecemos a coragem bruta que é a matéria-prima do amor".
Inês Pedrosa in Única 16/02/2008

oração

«Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen»

Natália Correia

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Guardar o que está perdido

«Les Demoiselles d'Avignon», Pablo Picasso

A mulher de Noé não queria entrar na arca e chegou mesmo a esbofetear o marido. A Bíblia silencia a respeito desse episódio do Dilúvio, mas sua veracidade é irrefutável.(...) A mulher de Noé esbofeteou o marido? Sim e não: É verdade e é mentira, realidade e ficção. Esse facto, ou preclara invenção da manhã dos tempos, conduz-me à natureza da vida, e seu desdobramento criador que é a arte. A criação literária é ao mesmo tempo confissão e escondimento. Todos falamos a verdade e todos mentimos. A nossa própria existência, soma inumerável de versões intestinas e alheias, é uma ficção.
...

(Jornal de Letras, artes e ideias) Lêdo Ivo

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

“volúpia”


Lágrimas.
E…
As mãos finas envolventes são facas.
As bocas vermelhas, sufocam!
Os corpos são duros e frios…


Ao canto do quarto preto
Cabeça toda deitada, chora.
Enquanto as mãos e as bocas
Envolvem com violência
Lá no canto preto do quarto…

Quarto nu.

Abdul-Hamid

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Sonhava tatuar um citroen ax na omoplata.
A pequenez da sua casa atingiu-a como uma rajada de vento. Subitamente precisava de um espaço maior, um quarto para cada angústia, uma sala para cada esperança.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Procissão (António Lopes Ribeiro)

Eu, não! Nós


O que é o meu sofrimento, por um amor perdido?
Sabendo que o sofrimento do mundo é do tamanho do mundo.
O que me dói? Nada!
Ou quase nada, porque só me dói a mim.

Nós, também sou eu, mais os que sofrem,
Essa é a dor que realmente custa, que desafia.
Eu, o ínfimo.
Nós, os que querem sentir juntos, essa é a mor dor.
Por que vale a pena chorar… e lutar!

Digam, seus poetas do eu,
Quanto vale o vosso sofrimento.
Digam!

Eu quero sofrer junto,
Custa menos e a razão é maior.
Eu, quero ser nós!

Abdul-Hamid

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

não existem outros deuses antes ou depois

"Nosso único critério de julgar uma arma ou uma ferramenta é sua beleza. Os meios já são os fins, de certo modo, a insurreição já é nossa aventura; Tornar-se É Ser. Passado & futuro existem dentro de nós & para nós, alfa & ômega. Não existem outros deuses antes ou depois de nós".

Recomeça

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

Sem nada, espero...

Abra-se a porta
e dela
a vida, renascida.


Viesse e chegasse
como um susto relâmpago.

Venha! Deste nada, vazio;

a vida,
o momento.

Quando for, que a porta se abra
estarei esperando.
Grávida!


Cuidarei com a própria vida.

Espero do nada
o momento...

Da porta
abrir...


Abdul-Hamid

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Marina

Falar de Marina sempre é complicado, pois há um certo conflito entre o que a cabeça de cima pensa e o que a cabeça de baixo im(v)agina.
Marina havia sido agraciada, desde tenra idade já, com um corpo esculpido, carregado de ingênua voluptuosidade.
Falei ingênua, porque Marina não precisava querer os homens a seus pés, ela os tinha.
Era uma fêmea que mesmo sem querer transpirava cio, exalava tesão, contagiava todos os machos a seu redor, bastando-lhe ser como era. Uma verdadeira “potranca” como diriam os amigos lá do sul.
Pele morena, quase jambo, perfeita, um metro de setenta de altura, uns sessenta e cinco quilos de carne firme, cabelos grossos e fartos, sempre bem lavados e brilhantes, dentes alvos que brilhavam numa boca bem delineada por um batom cor do pecado, rosto que misturava o angelical e o demoníaco na dose certa (às vezes um mais que o outro), seios médios do tipo pera, com os biquinhos duros o tempo todo, uma barriguinha malhada pela própria natureza, uma bunda redondinha que rebolava no ritmo dos passos, coxas e pernas dignas de uma obra de Miquelângelo e pés, nos quais cada dedinho era uma pérola de raro valor.
Aquela música do Francis Hime e do Cacaso parecia realmente ter sido feita para ela.
Naqueles dias estava acontecendo a Bienal do Livro no Ibirapuera e Marina, por sua simpatia e seus outros dotes óbvios, havia sido contratada por uma editora para atender ao público no imenso stand que alugara.
Muito embora houvesse toda uma preocupação com ar condicionado e ventiladores imensos e potentes em cada canto, o calor daquele dia deixava qualquer um de língua de fora.
Marina desfilava no stand, sobre lindas sandálias com um salto de 15 centímetros, que mais ainda destacavam as formas de suas pernas e coxas morenas e gostosas.
Como eu havia chegado cedo e tinha sido um dos primeiros a entrar na exposição, logo aluguei um carrinho daqueles de supermercado, pois iria comprar diversos livros que precisava para minha profissão. Tratei de providenciar logo as compras necessárias, já programadas com antecedência, cuidando para que pudesse chegar ao stand de Marina próximo ao meio dia.
Quando me viu chegar, empurrando aquele carrinho parcialmente cheio de livros já adquiridos, entusiasmou-se comigo, pois dependia da comissão de venda.
Logo que se aproximou de mim senti-me inebriado com seu perfume e deveras tocado com o sorriso com o qual me brindou.
Simplesmente não conseguia parar de olhar aquela boca sensual, aqueles lábios mágicos, verdadeira jura de beijos incríveis.
Marina obviamente notou e, com uma dose de picardia perguntou: “Por que olha tanto para minha boca? Está querendo me beijar?”.
“Para lhe ser bem transparente, quero beijá-la todinha, horas a fio!” – respondi, colocando minha mão no seu ombro e acariciando levemente sua nuca e seus ouvidos.
Marina corou e, olhando bem em meus olhos, fez com a boca aquele sinal de beijinho, disfarçada e rapidamente, em meio a um sorriso arteiro e envergonhado.
Foi o incentivo que eu buscava. Foi a faisca necessária para incendiar todos os meus impulsos de macho. Foi o “sim” para uma tarde que certamente prometia.
“A que horas você sai daqui?” – perguntei.
“Saio às 14:00 horas!” – respondeu. “O que tem em mente? – arrematou.
“Tudo o que você pode e o que você nem pode imaginar! – respondi com um sorriso nos lábios, também lhe mandando aquele sinal de beijinho.
Passei-lhe um pequeno bilhete com meu nome e o número do meu celular e lhe pedi para me ligar na hora em que estivesse de saída.
Para disfarçar um pouco, comprei um livro de instruções para o cultivo de bonsai e saí.
Ainda passei num outro stand ali próximo, onde comprei mais dois livros que precisava e depois me dirigi à lanchonete, onde, em meio a um rápido lanche, fiquei esperando o tempo passar.
Às duas e quinze meu celular tocou e ouvi a voz de Marina me dizendo que estava liberada de seu trabalho.
Em poucos segundos combinamos um local de encontro e logo já estávamos caminhando rumo a meu carro.
Descarreguei meus livros e os acomodei no porta malas, abri a porta do carro para Marina, entrei e, não aguentando mais a sedução do momento, beijei os lábios daquela fêmea estonteante, buscando sua língua com tanta sede que, a respiração de Marina se entrecortou e seu coração disparou. Isto sem falar nos biquinhos de seus seios, que de tão endurecidos pelo tesão, quase perfuravam os tecidos que os guardavam.
Procurei me acalmar um pouco e a convidei para almoçar.
Conhecendo-nos melhor, almoçamos em um restaurante próximo, onde serviam um ótimo bife à parmegiana. O vinho que tomamos nos fez muito bem, uma vez que minou as já pequenas resistências que haviam.


Entre sorrisos e insinuações bem picantes nos convidamos mutuamente para a continuação do programa, em algum Motel da redondeza.
O problema é que pouco conhecia aquela região de São Paulo e não tinha nenhuma idéia de onde poderia encontrar um Motel.
Saí dirigindo a esmo, com os olhos atentos ao trânsito, mas ao mesmo tempo procurando alguma indicação quanto a um Motel.
Foi então que Marina me surpreendeu.
Colocou sua mão esquerda sobre minha coxa direita e começou a acariciar. Ía até o joelho e voltava até virilha.
Procurei me ajeitar melhor no banco do carro, permitindo que meu pau achasse mais espaço dentro da apertada calça.
Marina se virou para mim, reclinou seu rosto sobre meu ombro e simplesmente agarrou meu pau sobre o calça, iniciando carinhos mais ousados e estonteantes.
Abaixou-se um pouco e passou por baixo de meu braço, encostando sua cabeça sobre minha barriga. Rapidamente abriu o ziper de minha calça e com jeito libertou meu pau que já latejava de tesão por aquela deusa.
Em segundos já o tinha na boca e o sugava com maestria. Minha glande, dilatada ao máximo e rubra de tesão, com um início de visgo já brotando foi abocanhada por aqueles lábios gostosos e senti quando sua língua passava sorvendo o líquido que brotava.
Era difícil dirigir naquela circunstância e ainda procurar um Motel.
Foi então que vi um hotel bem simples, mas aparentemente decente, e falei para Marina dar um tempo que iria providenciar-nos um ninho de amor.
Entrei e falei ao recepcionista que não iríamos ficar hospedados, mas tão somente tomar um banho e descansar do trabalho da Bienal.
Paguei antecipadamente a despesa, pedi água mineral e um maço de cigarros, estacionei o carro numa vaga na lateral do Hotel e subimos para o apartamento.
Mal fechei a porta e já o tesão tomou conta do ambiente.
Agora sim éramos um do outro sem impedimentos. Finalmente aquela fêmea me pertencia como a queria. Minha!
Fomos arrancando a roupa um do outro entre beijos bem doidos e gemidos de tesão e fomos levando um o outro para baixo do chuveiro.
Marina não largava meu pau e o punhetava e acariciava sem parar.
Debaixo do chuveiro o sabonete, às vezes em minha mão e outras na mão de Marina, excursionava por nossos corpos, ao mesmo tempo lavando e perfumando e deixando-nos cada vez mais doidos pelo tesão.
Sentei Marina sobre a tampa fechada do vaso sanitário e, ajoelhando-me entre suas coxas morenas, afundei minha boca naquela vagina encharcada de fluidos e latejante de excitação.
Marina suspirou profundamente ao sentir minha língua lhe pincelando o grelhinho e a invadindo na profundidade possível.
Em segundos já gemia alto, tentando se acomodar o melhor possível junto à parede do banheiro.
O cheiro do cio tomou conta do ambiente e, aos gritos, Marina explodiu num gozo farto e sacudido.
Seus seios estavam duríssimos, seus biquinhos inchados e tesos.
Boca aberta, olhos parados e pupilas dilatadas, corpo tremendo nos últimos espasmos do gozo.
Ergui-me um pouco e a beijei com ternura, mas minha língua lhe sinalizou que aquele apenas seria o primeiro de muitos gozos daquela tarde.
Nos secamos um pouco com as toalhas do banheiro e fomos para a cama.
Marina, incialmente, deitou sobre mim, beijando minha boca com uma mescla de ternura e crescente desejo. Foi abrindo as pernas e senti sua vagina se encaixando em meu pau que já doía de tanta excitação.
Minha glande foi sendo engolida por aquela vagina quente e ensopada e senti que Marina já estava refeita, pronta para o próximo gozo.
Ergueu-se sobre mim e sentou-se sobre meu pau que foi literalmente engolido para dentro daquele vulcão de tesão.
Marina agora era a dona da situação. Galopava sobre mim, gemia e pronunciava palavras incompreensíveis, seus seios duros agitavam o ar, suas mãos se apoiavam no meu peito e o arranhavam como se fosse uma pantera a devorar sua presa.
Em um ou dois minutos ela já urrava próxima ao gozo e minhas resistências também terminavam na mesma hora.
Explodimos juntos num gozo inesquecível.
Esvaí-me naquela fêmea em meio a fortes gemidos.
Marina caiu sobre mim e ali ficou, arfando e pulsando, enquanto a acariciava e beijava.
Aquele corpo moreno, gostoso, quente e firme, aquela pele sedosa e cheirosa, aqueles cabelos grossos e fortes, aquela boca carnuda e tesuda e aqueles seios duros e firmes, que apertavam meu peito, produzia em mim um tesão tal, que impediu meu pau de amolecer.
Ainda escorrido de gozo ele permaneceu duro, como se quisesse logo, partir para o próximo gozo.
Marina notou isto e imediatamente se ocupou dele. Deitou-se entre minhas pernas e começou a chupá-lo, a lambê-lo, tirando dele o restinho de gozo.
Mamava nele como se estivesse com fome, com sede.
Massageava meu saco e apertava cada um dos ovos com a firmesa certa, como que ordenhando, como que preparando o próximo gozo.
Sua boca quente e gulosa e aquela língua maravilhosa fizeram com que tremores começassem a perspassar todo o meu corpo. Choques elétricos me atiçavam à toda hora.
Ela se ergueu um pouco, olhou-me nos olhos e falou: “Quero o seu leitinho aqui na minha boca, amor!” – e logo senti que meu coração disparava.
Percebendo que o gozo me chegava, Marina aumentou a pressão dos lábios e engoliu meu pau completamente. Sentia a glande na sua garganta e então explodi num gozo forte, latejante, sacudido, enquanto Marina sorvia cada jato de leite, engolindo tudo e lambendo o que excedia e escorria.
Ali ficamos deitados, um sobre o outro, nos acariciando, sentindo o pulsar do coração um do outro até que o tesão se reacendia e nos amamos muito, a tarde toda, como se o mundo lá fora não existisse.

»L?ã?¤Ðå¤Met?o«

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Hoje o céu tem mais uma estrela

Era uma vez uma menina...apenas uma menina...
A vida foi-lhe colocando obstáculos pelo caminho e ela deixou de ser menina. Ou assim pensava ela.
Os seus braços e os seus cabelos cresceram e cresceram. E os olhos. Os olhos tornaram-se tão grandes que abarcaram dentro de si todas as pessoas que ela amou nos seus vinte e qualquer coisa de vida. E foram tantas essas pessoas.
O vento levou-as, a água apagou os seus rostos e mãos e sobraram nomes bonitos gravados nos olhos da menina.
Por isso mesmo ela aprendeu a gritar. Para deixar a dor sair. Para amansar a fúria da tempestade que grassava no seu interior.
Mas hoje ela não grita. Tem mudado aos poucos. Não se enfurece. Deixa-se cair na cama e canta baixinho.
Hoje ela quer-vos dizer isso mesmo. Que gritar no silêncio onde ninguém nos ouve não muda a nossa dor. Não apaga as feridas. Não retira os dedos que as pessoas insistem em cravar nos nossos olhos.
Por isso mesmo é preciso saber mover a paisagem. Saber andar como anda a água implacável. Saber terminar um ciclo e começar outro.

Eu sei e vocês sabem que ainda vou gritar muito, porque ainda vai doer muito. Viver, dói. Ver injustiças, dói. Magoarem-nos, dói. Perder alguém, dói.

Mas ao fim do dia há sempre música. Há sempre sorrisos. Há sempre um amanhã mais perto. Um desfecho, um ponto final.

Não apressemos o fim. Sentem-se aqui ao pé de mim e sintam a brisa.
Contemplem um pôr-do-sol, vivam os momentos unicos, amem, sorriam, abracem-se, sintam-se...


Desde menina que guardo
palavras. Em caixas, em garrafas,
nas páginas de livros vazios,
nos olhos de homens,
nas mãos de mulheres,
na alma do poeta.

Desde menina que te guardo
em mim.

Para ele, um menino ainda

céu ganhou mais uma estrela, depositou-se no meu olhar, espero que voces também o vejam brilhar :)


SOFIA

sábado, 19 de janeiro de 2008

Escuta, Zé Ninguém!

Já conhecemos a obra, esta pequena brochura, há muitos anos. Quando precisamos de exorcizar os nossos demónios vamos à estante buscá-la.
Neste momento sinto-me bastante confortável, sem necessidade de nenhum exorcismo, mas não deixo de verificar que os Zés e as Marias não desarmam, teimam em lutar das formas mais covardes e mesquinhas. Os Zés e as Marias Ninguém que me conhecem já deviam saber que comigo precisam de muita energia para me abalarem alguma coisinha... por uma razão muito simples, é que estou a vê-los, o meu sentido crítico está apuradíssimo, adicionado ao estado emocional, que é saciado, fica difícil, Zé Ninguém!

Chamam-te «Zé Ninguém!» «Homem Comum» e, ao que dizem, começou a tua era, a «Era do Homem Comum». Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado.

Tu és herdeiro de um passado terrível. A tua herança queima-te as mãos, e sou eu que to digo. A verdade é que todo o médico, sapateiro, mecânico ou educador que queira trabalhar e ganhar o seu pão deve conhecer as suas limitações. Há algumas décadas, tu, Zé Ninguém, começaste a penetrar no governo da Terra. O futuro.da raça humana depende, à partir de agora, da maneira como pensas e ages. Porém, nem os teus mestres nem os teus senhores te dizem como realmente pensas e és, ninguém ousa dirigir-te a única critica que te podia tornar apto a ser inabalável senhor dos teus destinos. És «livre» apenas num sentido: livre da educação que te permitiria conduzires a tua vida como te aprouvesse, acima da autocrítica.

Nunca te ouvi queixar: «Vocês promovem-me a futuro senhor de mim próprio e do meu mundo, mas não me dizem como fazê-lo e não me apontam erros no que penso e faço».

Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a importantes mal intencionados, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais.

Mas eu entendo-te. Vezes sem conta te vi nu, psíquica e fisicamente nu, sem máscara, sem opção, sem voto, sem aquilo que fiz de ti «membro do povo». Nu como um recém-nascido ou um general em cuecas. Ouvi então os teus prantos e lamúrias, ouvi-te os apelos e esperanças, os teus amores e desditas. Conheço-te e entendo-te. E vou dizer-te quem és, Zé Ninguém, porque acredito na grandeza do teu futuro, que sem dúvida te pertencerá. Por isso mesmo, antes de tudo o mais, olha para ti. Vê-te como realmente és. Ouve o que nenhum dos teus chefes ou representantes se atreve a dizer-te: És o «homem médio», o «homem comum». Repara bem no significado destas palavras: «médio» e «comum».

Não fujas. Tem ânimo e.contempla-te. «Que direito tem este tipo de dizer-me o que quer que seja?» Leio esta pergunta nos teus olhos-amedrontados. Ouço-a na sua impertinência, Zé Ninguém. Tens medo de olhar para ti próprio, tens medo da crítica, tal como tens medo do poder que te prometem e que não saberias usar. Nem te atreves a pensar que poderias ser diferente: livre em vez de deprimido, direto em vez de cauteloso, amando às claras e não mais como um ladrão na noite. Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém, Dizes: «Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?» E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida? Deixa-me dizer-te.

Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar.

Comecemos pelo Zé Ninguém que habita em mim: Durante vinte e cinco anos tomei a defesa, em palavras e por escrito, do direito do homem comum à felicidade neste mundo; acusei-te pois da incapacidade de agarrar o que te pertence, de preservar o que conquistaste nas sangrentas barricadas de Paris e Viena, na luta pela Independência americana ou na revolução russa.

Paris foi dar a Pétain e Laval, Viena a Hitler, a tua Rússia a Stalin, e a tua América bem poderia conduzir a um regime KKK – Ku-Klux-Klan. Sabes melhor lutar pela tua liberdade que preservá-la para ti e para os outros. Isto eu sempre soube. O que não entendia, porém, era porque de cada vez que tentavas penosamente arrastar-te para fora de um lameiro acabavas por cair noutra ainda pior. Depois, pouco a pouco, às apalpadelas e olhando prudentemente em torno, entendi o que te escraviza: ÉS TU O TEU PRÓPRIO NEGREIRO. A verdade diz que mais ninguém senão tu é culpado da tua escravatura. Mais ninguém, sou eu que te digo!...

Wilhelm Reich