segunda-feira, 19 de outubro de 2009

meu amor quando tu quiseres


o som da tua voz chega-me em odores de paraíso, azul e ouro.

és este bafo quente que me invade,

oscilante, procurando rumo,

um norte, até me encontrar e perder-se em mim.

resvalas em curvas e contracurvas que sou,

sem bússola, ao acaso…

não, não a procures.

deixa-nos, entrega-te, solto, à deriva, comigo...

contigo não me interessa o mundo, as
normas, o certo.

paredes de quarto que sou e

em que te acolho,

paraíso de cheiro de incenso,

loucura-aroma feito

inconsciência...

apenas as formas se encontram , em delírio, à beira dos nossos 

limites…

cais por mim e eu acolho-te, procuras-

-me e eu revelo-me.
e é em paraíso que te recebo.
 
minha sensibilidade eleita,  
 

ternura que nunca tive, 

carinho antes sempre

negado.

e sou esse espaço deitado ao teu lado,

o mesmo que tu ocupas quando o frio te invade,

quando o Amor te falha.

e, sem recusa , aguardo-te,


presença sempre certa nos teus devaneios,

conforto depois de em ti ser-mundo,

Amor quando tu quiseres.                    Alma

terça-feira, 13 de outubro de 2009

rendida, rendição, rendo-me

Emilia Castañeda

sinto a envolvência da tua presença, como braços que me dominam e subjugam à tua vontade, mão que és por mim-fora, pele colada, fundida em mim, impressão digital perdida, algures, em nós.

côncavo e convexo acertados pelo desejo, numa dança sem par, de música quase inexistente, tocando no entre-nó, para Nós, em surdina.

ouço a tua voz que quase esqueci, sem calor de alma pois que agora és só cheiro, vontade e ternura.

e saber que desígnios, que forças trazes em ti que me fazem acreditar em não te vás embora, não me deixes, como toques de sinos numa alma já finada pelo desprazer.

e como me daria!..., como seria, como me descobriria para ti, para que soubesses, para que acreditasses, para que fosses e tu sendo comigo…

tu, minha alma, espaço interior em mim, força estranha e também esquecida pela vida, que assim me domas à tua vontade como me domas nos teus braços, prendendo-me e soltando-me no desejo que sonhas pelos dois.

contigo serei, Sou.

e nada temo. permaneço, recuso a saída. só não sei porquê.



Alma

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Aos que vierem depois de nós


Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.

E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.

Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.

Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.

Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.

Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais frequentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.

Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Bertolt Brecht
                                                      (Tradução de Manuel Bandeira)