terça-feira, 30 de novembro de 2010

e se tu fosses o meu mundo redondo

e se fosses tu esse meu mundo redondo... linear, justo, ajustado a mim, ao que começo a pedir à vida, perdida que está uma parte, violada, desintegrada...

e se fosses tu esse círculo protector à minha volta, fechado mas pleno, sem arestas, rebordo que eu percorreria com as minhas mãos, como se acaricia o extremo de um copo de cristal, sabendo que não se encontrará irregularidades, suave ao toque da polpa dos dedos, inocente no toque dos lábios.

e se essa linha contínua, fina, nunca se quebrasse, pela força que envolve, pelo tudo que abraça, sorriso dos meus dias, sonho de uma vida.

e se fosses tu, homem, a minha quimera... o que faria eu?

nada, absolutamente nada.

apenas que me fosse concedida a eternidade que seria a tua também, para poder estar do teu lado até que precisasses de mim.

mais nada.

o mais seria O Tudo, só e entre nós.

Alma

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

vem, meu rio de sensações...

vem, meu rio de sensações, cavalo louco a trote pelos meus sentidos.
                  sinto-te transbordante pelas margens do meu  corpo, transpirando  em mim, fazendo-me resvalar por ti, minha fonte de prazer.

e eu Mulher fluida no rio de prazer em que te escoas, sinto-te profundo em mim, suspirando, ofegante, nesses rápidos de prazer que nos projectam pelo outro, que nos  arrastam em desordem pelo leito sem norte, tu proa, eu ré, tu ré na minha proa.

                                               e de sentidos perdidos, quais sensações únicas do prazer por  dar prazer, encontramo-nos, uníssonos, nesse porto mais além, mais fora do horizonte, onde chegamos sem desejar voltar.         Alma

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

a teu gosto

 Rupert Bunny


suave, leve, discreto, sorridente, próximo, toca-me, puxa-me, leva-me, transporta-me, terno, carinhoso, sussurro aos meus ouvidos, boca húmida na minha orelha, na minha boca, força-me, lento, decidido, vergo, sou, gemo, vou, leva-me, arrasta-me pelo solo, pela cama, esquece a delicadeza, vira-me, revira-me, possui-me, consome-me...


viste? já não sou eu... arranca-me o tempo, o espaço, o que me faz sofrer, a dor, nessa dimensão que só tu conheces...

quem sou? Mulher, apenas Mulher.
 
Alma

domingo, 14 de novembro de 2010

jardineiro...

Jardineiro, amas todas as flores
A cada brisa dançam, graciosas pelo carinho.
Sorriem à tua chegada, ao primeiro raio de Sol.
Sonham a tua voz de mel,

Anseiam o amanhecer, sentir-te, ter -te.

Quiseras-me flor do teu jardim.
Inundar-me com beijos,

Com tuas mãos, calor e entrega,
O verde do teu olhar me faria medrar…


Quando o meu tempo passasse,

Recolhias as minhas pétalas secas, no meio de um livro.

As pétalas caem-te no colo,
Segura-las com suavidade,

Acaricias com a ponta dos dedos,
A lembrança abre-te um sorriso doce e malandro,

Soltas em suspiro,
Linda flor tive no meu jardim
!
Vanda Romeu




sexta-feira, 12 de novembro de 2010

caminhos impensados

Nestas viagens por caminhos impensados
o fascínio está na incerteza duma próxima vez.
De contrário seriam caminhos pensados.
Nas noites de maré vaza há pedras que se despem
e mostram-se na luz morna de lua sem ser cheia.
Num barco de remos que por ali pernoita
dormem carícias que a noite afaga
em corpos que a maresia lambe.
Caminhos impensados mais parecem artérias pulsantes
à descoberta da ilha dos amantes.
Marcadores de tempo e de território
não são pensados nos caminhos impensados.
Basta seguir os contornos do momento
em atalhos de esplendor difuso
e escutar os sons cativos da expectativa
e sentir-nos e chegarmos lá...

O fascínio está na incerteza duma próxima vez
nestas viagens por caminhos impensados.

Adelaide Graça

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

as tuas mãos que eu penso

fala-me das tuas mãos, da sua brancura, da sua suavidade quando exploram pele desconhecida... de como correm lentas, de curva em curva, de poro em poro, como crianças felizes brincando ao fundo do jardim, desejosas da descoberta de terreno inexplorado...

como gosto dessa calma... sinto-as suadas na ansiedade contida, deslizando enquanto saboreiam cada parte de mim... e eu, em deleite, passo a língua pelos lábios secos de dormência e prazer.

e avanças, sempre calmo e suave, contornas-me os ombros, a curva do pescoço, o rosto até à boca que, em delírio de dentes, te morde os dedos um a um.

prendo-as. olho-te no fundo dos olhos com que me desejas e invado-te com as minhas. seguro-te. sonho domínio, subo e desço por ti com toda a vontade que tenho, fazendo do meu corpo as minhas mãos. quero tudo e as minhas são demasiado pequenas...

lentamente... tão bom este sentir em pormenor, também nos teus olhos que sorriem, na tua pele que se arrepia e se crispa à minha passagem, em gestos lentos e felinos.

e serão elas de novo, no teu acordar, esperando-te com a refeição da manhã. sentam-se ao teu lado, partilham o momento contigo e seguem-te para onde fores, seguras às tuas. leva-as para onde as queiras levar.

são eu em ti, aquecendo-te o corpo e a alma.

Alma

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

tu, no altar em mim


acto de silêncio



         cada momento teu em mim, celebrado aqui, como oferenda no altar do amor.

                                                                                                                           Alma

terça-feira, 2 de novembro de 2010

"quando os olhos se me cerram de desejo..."

Richard YOUNG

"Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti... "

Florbela Espanca