sábado, 30 de abril de 2011

desejo inconfessável


deixa-me entrar e descansar...

trago nas mãos o cansaço da vida, a vontade incompleta, o sentimento rasgado.

nunca, por onde parei, por onde andei, souberam acolher-me na essência.

a pele revela as marcas da vulgaridade que julgaram ser meu prémio, o corpo, a insensibilidade provocada pelo hábito indiferente.

deixa-me, pois, entrar. deixa que me sente aqui, ao calor da cumplicidade, e atravessa-me com esse olhar com que me vês, tu que começas a conhecer-me na minha dimensão, por dentro.

e olha-me, que seja eu quem vês nessa realidade que já conheces e que te revelei. vê o que quero nesse momento, estende as mãos devagarinho, pega-me nos pulsos e puxa-me para ti. lê no meu olhar a tua vontade e ensina-me a entrega total, aquela em que já desacreditei há muito.

o mais será o que quiseres, como quiseres. sê meu mestre, ousa comigo o que nunca terás feito com ninguém, faz-me sentir vida fazendo-me viver. sê louco junto ao meu ouvido, em palavras, em fechar de dentes e de lábios, pelo meu pescoço, ombros... espalha-te por mim, devorando-me e diz-me, diz-me não interessa o quê, apenas quero sentir que é a mim que acaricias, consciente da tua força, do teu domínio e eu sentir que estás ali por mim e só por mim.

sujeita-me à tua vontade, devagar mas firme, sensível mas forte, faz-me ceder ao ponto de não conseguir evitar o gemido, o grito, o pedido para que continues. sufoca-me com a tua boca num beijo inacabado e parte de novo à descoberta de mim, por mim...

tu, na pele das minhas costas, a tua respiração quente na minha nuca, os teus braços prendendo-me e sujeitando-me ao teu desejo, e eu entregue a ti, lendo nos teus movimentos e sincronizando-me com eles. até ao fim.

e esse beijo que chega, enfim.

quanta suavidade nesse encerramento da loucura, em carícia molhada e terna... e tu que me sorris, sempre, invadindo-me nessa suavidade doce. os teus braços rodeiam-me ainda... não, não me largues, protege-me mais um pouco... adormece sobre mim. o teu rosto no meu ventre refresca-o em suor... os meus dedos brincando no teu cabelo. a minha respiração ao ritmo da tua, a inconsciência do mundo lá fora e sentir que somos só nós, ali, porta fechada ao que nos magoa.

Alma

sexta-feira, 29 de abril de 2011

basta-me às vezes...


não, não é preciso sempre...
            basta-me às vezes, basta-me o teu nome, bastas-me tu.
assim, suavemente, escorrendo em palavras
                     e desejo por mim
                                                     como bálsamo,
                                                     como carinho, ternura...
 
e és sempre nas noites redondas que me dedicas,
                       sempre, sem fim.    Alma

quarta-feira, 27 de abril de 2011

rasto de ti


trago comigo o rasto das memórias que foste...

faço delas colchão e cobertura, numa tentativa de manter inteira a pessoa que sou.

o mundo, tão fácil, oferta de rumos diferentes dos nossos, dos desejados, mantém-se suspenso para além de mim, observando cada momento meu de fragilidade.

e eu abrigo-me nas ainda tuas palavras, no ainda refúgio que és...

não porque estejas comigo, não porque tenha ainda a tua voz, o teu braço na minha cintura, o teu calor indelével em mim, o teu apoio no fundo do meu olhar...

mas porque conto com o bem que me queres, o cuidado que me tens, a ternura que revelas e que chega até mim sob a forma de pensamento secreto quando te lembro.        Alma

terça-feira, 26 de abril de 2011

Arrepio em Alma...

 
... este, o das palavras.

nascente de água pura, roldão de sentimentos que me arrasta, em cada momento de invasão, de posse alheia, em mim.

e quedam-se-me os sentidos, os gestos, a vontade…

tudo em mim é interior, tudo é, em mim, Alma, reservada para ti, envolta em algodão, incólume, pura, em desejo, em pele, arrepio em mim. Como a escrita em que sou.

para ti, que conheces os meus pensamentos, os meus sentimentos, as minhas tristezas e alegrias. e mesmo quando sou desejo, mais ninguém o vê, o reconhece como meu, como ninguém vê a minha Alma...

e nessa essência que também é ser Eu, sou-te em palavras, recatados que estão os gestos que me impelem para esta forma de escrever.                         Alma

domingo, 17 de abril de 2011

rasgo-


… me por ti.
 
Na boca que se fecha, no olhar que enclausura as lágrimas, no peito que se tapa com tule de viuvez, no ventre tornado casto, no grito que não solto, no silêncio que aumenta a pressão do ar que respiro.
 
Na Alma que se recusa.
 
Tudo em mim é rasgo. Rasgo pela saudade que deixas como rasto na secura de um deserto, como sulco do corpo em sangue que negaste por falta de fé.
 
Serei ainda rasgo nas noites em que fincar os dedos no teu lugar vazio e inspirar o perfume perdido na almofada que não utilizaste.
 
E no meu acordar cravarei as unhas nas mãos que beijavas com esse riso rasgado de adoração agora incompreendida.
Alma

sexta-feira, 15 de abril de 2011

palavras minhas, carícias em ti


são rebeldes, estas minhas palavras... soltam-se-me e partem à procura de poiso, como borboletas...

livres, são beijos que acariciam lábios desprevenidos, esboçandos sorrisos, desejando o desejo.

 

acolhe-as nas tuas mãos, prende-as, guarda-as contigo. entrarão no teu lar, na tua intimidade e na tua vida. alegrarão os teus momentos de solidão, espalharão a sua cor pela casa em dias de tristeza e sentirás, pela manhã, a doçura da sua carícia solta no teu rosto, depois de terem partilhado contigo o outro lado da tua almofada.

elas serão eu contigo. às vezes amigas, outras amantes, outras ainda crianças. pedaços de vida minha, de alma de contornos profundos, companheiras nessa tua travessia pelo deserto que te consideras, resistentes como só sabe ser tudo o que é verdadeiro. e sente.

Alma

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Meu mar...


Meu mar na descoberta de mim. Soltaste-te pela areia beijando tudo quanto havia por beijar e abandonaste-me, deixando a humidade das lágrimas sobre o areal do meu corpo.
 
Tolho agora os movimentos quando abraço alguém, meu corpo arrepia-se de medo nas mãos de outra vontade e mesmo o meu desejo se seca na tua ausência.

E dizes-me que me adoras mas não podes, que me desejas mas não me queres, que sou o teu sonho que nunca poderás ter.
 
Volto as costas e sigo para as profundezas de mim-mar, serenando o meu amor, recalcando no corpo os desejos que sou.          Alma

terça-feira, 12 de abril de 2011

perdemo-nos? ou nunca nos encontrámos?


queima-me a memória da suavidade do que "nós" representava.

um sonho ao raiar do dia, palavras de confiança, de quem se ria dos "talvez". eles não existiam, eram antes sorrisos certos ornamentando as certezas do meu, do teu olhar.

quem nos perdeu? quem se perdeu de quem? não vale a pena questionar., as culpas são sempre pares... uns porque não deviam, outros porque deviam. e tudo passa, o sonho, a doçura, a ternura.

não sinto rancor, ou raiva, negrume... apenas uma infinita, uma magoada tristeza. não sei se porque não devia ter-me iludido, porque não devia ter ficado, porque não devia... ou devia.

e este amargo de boca vazia do teu sorriso desenhado em mim.              Alma

sexta-feira, 8 de abril de 2011

pensamento íntimo


hoje pensei em ti com aquela quietação relaxante de quem suspira, se enterra na cadeira e fecha os olhos.

e foi uma circularidade dentro de mim, em queda-espiral, em profundezas de memória, de desejo contido, de cor avulsa em delírio.

e o Lá-fora foi o não-espaço, o tempo perdido o não-tempo. O Nunca.

a existir apenas... foste tu e eu, quiméricos.

Alma

terça-feira, 5 de abril de 2011

E chamo-te em silêncio...


Que segredos contarias tu sobre a minha boca entreaberta, o teu hálito sobre o meu, salivando, provando, degustando o mais amor que nunca dei, o carinho que o cego desejo esqueceu, sempre ansioso, possessivo...
 

Pudesse eu conciliar em breves momentos contigo a intensidade que os meus sentidos encerram dentro de si. Seria como o mel-seiva de quando te penso, quase sentindo a leveza das carícias que de ti prevejo.


E chamo-te em silêncio, sentindo este sol que me abrasa as costas enquanto, estendida no areal, espreguiço o sonho e o desejo da tua ausência, evocando memórias que a ondulação quase inexistente transforma no sussurro das palavras com que me embriagas.                  Alma

segunda-feira, 4 de abril de 2011

És o meu destino...


Aqui, sozinha, revejo a fragrância com que tens atapetado os meus dias. Em palavras, em presença, em eu estou aqui, não te esqueças...

 
E parto ao teu encontro, sem medo, sem hesitações…e tu sempre à espera.

 
À minha espera.                

Sento-me ao teu lado, ombro paralelo ao teu e permaneço em silêncio... Fecho os olhos e meço o direito, o merecimento que poderá haver em mim para te ter encontrado.
 

                                                 Mas a tua voz quebra-me o devaneio, olho os teus olhos e percebo que não há explicações para o Destino.             Alma


domingo, 3 de abril de 2011

vem e ensina-me


vem e ensina-me

que eu ensino-te a felicidade, aquela que nos abandonou em rios de Tempo, em tempos, quando a ilusão nos sustentava e nos destruía como os cabelos que embranquecem, como as rugas ao canto da boca, crescentes num amargor de ser.

vem e ensino-te

os meus beijos mais ternos, mais meigos, mais tudo e aquilo que nunca foram, enclausurados na teia de mentiras que fazem sorrir e logo, logo, à hora da lua chorar no contorno da almofada.

vem e ensina-me

o amor que se faz, num extra-espaço, delírio de corpos e palavra sussurradas, como se o fim tivesse sido sem nós e o princípio fosse apenas possível quando enlaçamos as mãos.

vem e sê quem quiseres,

descobre-te Homem num corpo de Mulher de nome Alma

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Mentiras


Sussurras-me sentimento ao ouvido, entre o sopro de gosto da tua boca e o aroma da tua pele...

Bafo quente que me chega e me fecha os olhos,

                  Voz dominada pela paixão que me estremece os ouvidos...

E estremeço também toda...

E pergunto...

                   Quem sou eu para ti?

A que sempre foste nos meus sonhos, a que quis para mim.

               ... Mas, assim?

Assim, sim, sem nome, sem rosto, sem espaço, tu, num tempo que eu sabia que chegaria.                                             Alma